A presença de grande número de riachos e nascentes, ainda pouco afetados por atividades humanas, ajudam a manter as águas do rio Cipó preservadas e de boa qualidade.

Texto: Luiza Baggio

A aproximadamente 100 km de Belo Horizonte, a Serra do Cipó é um dos últimos espaços próximos da capital que conserva paisagens originais do cerrado, cachoeiras, matas sítios arqueológicos e, principalmente, um rio de ótima qualidade: o Cipó.

A região da Serra do Cipó é banhada pelo rio que lhe dá o nome e está inserida na Serra do Espinhaço. A topografia acidentada e a grande quantidade de nascentes formam diversos rios, cachoeiras, cânions e cavernas de excepcional beleza natural. Além disso, a Serra do Espinhaço, divide duas importantes bacias hidrográficas brasileiras: a do São Francisco e a do Rio Doce. Também é um divisor de dois biomas: a mata atlântica e o cerrado, que estão entre os 25 biomas mais ameaçados de toda a Terra. O Parque Nacional da Serra do Cipó tem 34 mil hectares e perímetro de 85 km, com altitudes variando entre 750 a 1600 metros, foi criado em 1984 e engloba terras de Santana do Riacho, Jaboticatubas, Morro do Pilar, Itabira e Itambé do Mato Dentro. O Parque Nacional da Serra do Cipó é o melhor cartão de visita para quem quer conhecer o Espinhaço.

Existe também a área de proteção ambiental do Morro da Pedreira, criada em 1990, com a finalidade de proteger o entorno do Parque e que possui o dobro do seu tamanho.

Outro grande atrativo da Serrá do Cipó são seus vestígios arqueológicos. Na região podem ser encontradas pinturas rupestres nos inúmeros sítios arqueológicos, grutas e cavernas, com interessantes desenhos de comunidades primitivas. Há registros do cotidiano dos homens pré-históricos com idade estimada entre 8.000 e 10.000 anos.

A região também é destino obrigatório para quem gosta do contato com a natureza. Com inúmeras cachoeiras, rios, cavernas, cânions, trilhas perfeitas para caminhadas e mountain bike, é também um dos um dos centros nacionais de escalada, entre outras atrações.

“A Serra do Cipó é meu segundo lar. Vou para lá pelo menos uma vez por mês e quando tinha mais tempo ia todo final de semana. Com apenas 1h30 de viagem consigo me desligar da rotina cansativa que tenho em Belo Horizonte, fazer atividades físicas, como caminhada e escalada, além de recarregar as minhas energias com as águas de lá”, conta Fernanda Abdallah, que é frequentadora assídua da Serra do Cipó.

A fauna também é imensa e pouco conhecida, abrigando várias espécies ameaçadas de extinção, como o lobo-guará, cachorro-do-mato-vinagre, tamanduá-bandeira, veado-campeiro, onça-parda e gato-maracajá. O lobo-guará é um dos representantes mais conhecidos da fauna encontrada no parque. Dentre as aves pode-se avistar com frequência tucanos, gaviões, codornas, perdizes, pica-paus e espécies raras, como o beija-flor-de-gravata-verde, endêmico da serra, despertando grande interesse em ornitólogos de várias partes do mundo.

Na parte baixa da serra predomina a vegetação de cerrado, enquanto na região mais alta são encontrados, principalmente, os campos rupestres, de elevadíssima diversidade florística e onde alguns cientistas consideram que se concentra uma das mais ricas comunidades vegetais do mundo, inclusive com numerosas plantas endêmicas, ou seja, que só existem lá.

Dentre as plantas destaca-se a ocorrência das sempre-vivas, cujas flores secas, pelo fato de não murcharem nem perderem a cor, são muito utilizadas em ornamentação.

Bastante frequentes são as curiosas canelas-de-ema gigantes, que podem atingir até seis metros de altura e um metro de circunferência na base do tronco. São encontradas também orquídeas de várias espécies, bromélias, margaridas, cactos, ipês e quaresmeiras, além de fascinantes liquens coloridos que brotam sobre as pedras. Enfim, a multiplicidade de espécies vegetais é tão grande que a região encontra-se permanentemente florida durante todas as estações do ano, sendo considerada um verdadeiro laboratório a céu aberto, um paraíso para os botânicos.

Para o proprietário da pousada Fazenda Monjolos, na região da Serra do Cipó, Oswaldo Machado, e que também faz parte do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Codema) e do Subcomitê Rio Cipó que pertence ao Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas), são muitos os atrativos que conduzem os turistas, de modo geral, à Serra do Cipó. “Entre esses atrativos, vale ressaltar a generosidade e a hospitalidade do povo da região, a existência do Parque Nacional, a indescritível beleza cênica da Serra do Cipó; o clima ameno; a diversidade de opções de passeios em contato direto com a natureza, com destaque para as incomparáveis flora e fauna, inclusive com espécies endêmicas. Além de tudo isso, as águas do Rio Cipó, nossa maior riqueza, são hoje, nosso maior atrativo para a manutenção e desenvolvimento do turismo regional”, explica.

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De cima p/ baixo: A Mata Atlântica e Cerrado são características da região/ Pinturas rupestres em Santana do Riacho/ flora/fauna.

O Rio Cipó

O Rio Cipó destaca-se por ser um importante afluente do Rio das Velhas, juntamente com o Rio Paraúna. A sub-bacia do Cipó-Paraúna, localiza-se na região do Médio Rio das Velhas, abrangendo 12 cidades: Santana de Pirapama, Baldim, Conceição do Mato Dentro, Presidente Kubitschek, Datas, Gouveia, Santo Hipólito, Presidente Juscelino, Congonhas do Norte, Santana do Riacho, Jaboticatubas e Monjolos. Esta é a sub-bacia do Velhas que possui o maior número de municípios.

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Da esq. p/ dir.: As belezas naturais são atrativos para o turismo na Serra do Cipó/ Cachoeira Grande, Rio Cipó

O Rio Cipó, que é o mais importante curso d’água de sua região, nasce a partir do encontro dos ribeirões Mascate e Gavião, sendo que o Mascate desce do cânion das Bandeirinhas, enquanto o Gavião a serra da Bocaina, ambos no interior do Parque Nacional da Serra do Cipó e deságua no Rio Paraúna, no município de Presidente Juscelino.

A presença de grande número de riachos e nascentes, ainda pouco afetados por atividades humanas, possibilita que as águas da Serra do Cipó sejam padrão de referência para ambientes aquáticos de ótima qualidade, equilibrados e com elevada diversidade biológica, o que ajuda a manter as águas do rio preservadas e de boa qualidade.

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Cachoeira do Bicame, na Lapinha da Serra, distrito de Santana do Riacho. Devido a sua preservação, a Bacia do Rio Cipó  é uma fonte de águas limpas e de peixes para o Rio das Velhas

A coordenadora-geral do Subcomitê Rio Cipó, Fernanda Loyola, explica que o Cipó tem sua cabeceira preservada pelo Parque Nacional da Serra do Cipó, o que garante que as águas estejam límpidas e resguardadas de impactos, além da manutenção do fluxo de água constante, devido às inúmeras nascentes localizadas no município de Jaboticatubas que formam os principais cursos d’água que correm dentro do Parque.

“Ao longo do seu curso até sua foz, certa de 200 km ‘rio abaixo’, o Cipó recebe águas ainda de qualidade muito boa, como o rio Parauninha que nasce nos contrafortes da Serra do Breu, próximo ao povoado de Lapinha, mas que também sofre impactos significativos como queimadas constantes durante a estação seca, além de dois grandes represamentos para duas PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas), ambas no município de Santana do Riacho”, acrescenta Fernanda Loyola.

O Rio Cipó é classificado como ‘Especial’, dentro do Parque e cai para ‘classe 1’, devido às pressões que vem sofrendo, ainda com agricultura e mineração, no seu médio e baixo curso.

Além disso, o Rio Cipó tem um potencial para despoluir o Rio das Velhas e, por isso, é considerado um de seus mais importantes afluentes. De acordo com o artigo 4º da Lei Estadual 10.629, de 16 de janeiro de 1992, o Cipó é considerado rio de preservação permanente, declaração atribuída a cursos de água ou seus trechos com características excepcionais de beleza, ou de valores ecológicos, históricos ou turísticos em ambientes silvestres naturais ou pouco alterados.

Oswaldo Machado esclarece que esta Lei é de fundamental importância. Além de proteger toda a bacia do Rio Cipó, no que tange à preservação do meio ambiente, como um todo, a lei protege também a qualidade de suas águas, reconhecidas, de forma reiterada, como excelentes nos aspectos balneabilidade, potabilidade e, também, como berçário para a reprodução e povoação da, até então, abundante fauna aquática existente no Rio das Velhas, do qual o Rio Cipó é o maior e mais importante tributário.

“Por tudo isso, o nosso Rio Cipó é motivo de crescente orgulho para a região da Serra do Cipó. Também é um exemplo vivo de preservação ambiental, contribui de forma decisiva no sentido de manter o equilíbrio ecológico e a biodiversidade dos ecossistemas aquáticos e marginais”, afirma Oswaldo.

De acordo com dados do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), a sub-bacia do Cipó-Paraúna, com águas de boa qualidade, ajuda a recuperar os níveis normais de oxigênio dissolvido nas águas do Rio das Velhas, na região de Santo Hipólito, local de sua foz.

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Para os amantes da natureza e esportes, o Rio Cipó é um destino obrigatório

Subcomitê Rio Cipó

O Subcomitê Rio Cipó, pertencente ao CBH Rio das Velhas, foi instituído em 09 de fevereiro de 2012, composto pelos municípios de Baldim, Congonhas do Norte, Jaboticatubas, Presidente Juscelino, Santana de Pirapama e Santana do Riacho.

Desde sua criação, o Subcomitê Rio Cipó articula com as instituições atuantes na bacia, uma rede de diálogo e resolução de conflitos, o que transforma o trabalho num desafio, já que se trata de uma extensa área territorial e com realidades muito distintas.

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Integrantes do Subcomitê Rio Cipó

A coordenadora-geral do Subcomitê Rio Cipó, Fernanda Loyola, comenta que em 2015, o Subcomitê do Rio Cipó apresentou duas propostas de projetos hidroambientais com o objetivo de construir e monitorar barraginhas em pontos estratégicos ao longo de toda a bacia e contribuir na melhoria do esgotamento sanitário em seu primeiro afluente poluído que é o ribeirão Soberbo, no distrito de Cardeal Mota/Serra do Cipó, substituindo as fossas irregulares por alternativas funcionais e com baixo custo de manutenção. Ambos os projetos foram aprovados no chamamento público realizado pelo CBH Rio das Velhas e aguardam adequação pela AGB Peixe Vivo.

“Esperamos que em 2016, estes projetos hidroambientais sejam executados e, assim, conseguiremos unir forças, principalmente com o médio e baixo curso, no sentido de pensarmos no rio Cipó enquanto bacia e evitando impactos negativos”, afirma Fernanda Loyola.

“Pretendemos que o Cipó continue sendo um rio preservado, fundamental para a revitalização da Bacia do Rio das Velhas”. afirma Marcus Vinícius Polignano, Presidente do CBH Rio das Velhas.

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Da esq. p/ dir.: Fernanda Loyola, coordenadora-geral do SCBH Rio Cipó e Marcus Vinícius Polignano, presidente do CBH Rio das Velhas

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