“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quiser passar além do Bojador
Tem que passar além da dor…”

Texto: Eugênio Marcos Andrade Goulart
Coordenador de Publicações Científicas e Literárias do Projeto Manuelzão da Universidade Federal de Minas Gerais

Estes versos, um dos mais famosos da língua portuguesa, foram escritos pelo grande poeta Fernando Pessoa. Eles se referem às grandes navegações lusitanas pelo “Mar Tenebroso”, como era chamado nos anos de 1200 a 1800 o Oceano Atlântico. “Bojador” era um ponto proeminente na costa da África, difícil de ser ultrapassado pela navegação, devido às correntes marítimas que empurravam as caravelas para as mortais calmarias em alto mar.

Teria ocorrido algo semelhante na Província de Minas Gerais, mais especificamente na sua espinha dorsal de então, o volumoso, imprevisível e indomável Rio Guaicuy, nome dado pelos índios e batizado, posteriormente, pelos bandeirantes de Rio das Velhas?

Sim, com certeza, e muitas lágrimas foram derramadas como conseqüência de desastres fluviais. As corredeiras perigosas, que iam de encontro às rochas incrustadas no meio do rio, os bancos de areia traiçoeiros, as margens fechadas por uma mata ciliar impenetrável, e o risco do ataque de tribos de indígenas hostis, até então senhoras de todo o território e incomodadas com os intrusos “caraíbas”.

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Desenho de J.M. Rugendas – Rio das Velhas em Sabará/1835

As mais antigas cidades de Minas Gerais surgiram próximas ao Rio das Velhas, devido às riquezas em ouro e diamante em sua bacia hidrográfica. Para citar algumas, basta lembrar de Ouro Preto, Mariana, Sabará, Caeté, Santa Luzia e Diamantina. A Quinta do Sumidouro, atualmente situada no município de Pedro Leopoldo, foi a primeira vila de Minas Gerais, fundada pelo bandeirante Fernão Dias no final dos anos 1600. Por perto, foi desenterrada do fundo do Rio das Velhas uma imensa canoa de madeira, com 14 metros de comprimento e com cerca de 300 anos de construção, quando foi escavada a machado em um tronco de vinhático (Goulart, volume 1, página 26).

Ainda sobre o Rio das Velhas, assim escreveu Richard Francis Burton, na realidade um espião inglês, mal disfarçado em naturalista e antropólogo, quando desceu de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico, em 1867 (Burton, página 16): “O rio é profundamente encaixado; são curtos os trechos retos, e tem-se a impressão de navegar-se em direção a alcantis [rocha talhada a pique] cujos penedos alcançam o leito, recortando-o em pequenas curvas.

Mais adiante em seu livro (Burton, página 136), descreveu a parte média do Rio das Velhas, no centro geográfico de Minas Gerais, mas especificamente no Saco do Picão: “O Picão merece sua má fama; talvez seja a pior obstrução do Rio das Velhas. O rio é represado por uma larga faixa de pedras pontiagudas, e, além disso, rochedos e bancos de areia obstruem seu leito, na extensão de dois quilômetros, acima e abaixo dessa barreira.” Após semanas de viagem, Burton se emocionou com o encontro majestoso do Velhas com o São Francisco (Burton, página 159): “Se algum lugar merece o selo da grandeza conferido pela mão da Natureza é essa confluência.”

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Sentido horário: Vapor Saldanha Marinho navegava o Rio das Velhas de Sabará/MG à Juzaeiro/BA. Encontro do Rio das Velhas com o Ribeirão Arrudas. Canoa de 300 anos encontrada no Rio das Velhas. Encontro do Rio das Velhas com o Ribeirão Sabará.

Alguns anos após, em 1871, singrou o Rio das Velhas o vapor Saldanha Marinho, que fora construído em Sabará. Era a primeira embarcação de grande porte a navegar pelo rio, já que tinha 28 metros de comprimento, fazia a velocidade média de 23 quilômetros por hora quando navegava rio abaixo e 14 quilômetros quando rio acima. Além de carregar dezenas de passageiros, comportava ainda 50 mil quilos de carga. Por muitas décadas transportou ribeirinhos, tecidos, madeira, produção agrícola e pedras preciosas. Navegou até 1943, quando naufragou próximo a Juazeiro, na Bahia, cidade que era o destino mais distante de suas viagens regulares. Hoje o barco tem endereço fixo na margem direita do Rio São Francisco, em Juazeiro, e em sua homenagem foi construído um memorial (Goulart, páginas 144-5).

Infelizmente o Rio das Velhas, e toda sua bacia hidrográfica, sofreram séculos de agressão, promovidas pelos seres humanos. As milhares de nascentes que alimentavam o rio foram desmatadas e muitas secaram. Sua vegetação ciliar desapareceu em inúmeros pontos de suas margens. O ouro que se escondia nas areias do seu leito e dos pequenos cursos de água foi avidamente retirado, com bateias e posteriormente com máquinas sugadoras e bombas que destruiram as margens com jatos de água. Além ainda da exploração voraz do minério de ferro das montanhas da região.

O resultado disso é que o Rio das Velhas foi sofrendo um enorme assoreamento e seu volume de água reduzido progressivamente. A crise hídrica atual vai muito além da bacia do Rio das Velhas, pois outros rios foram submetidos aos mesmos processos exploratórios. A humanidade já começou a pagar o alto preço por sua ambição econômica e por não ter previsto o custo que inevitavelmente a Natureza irá nos cobrar.

Todavia, ainda é tempo de revermos nossa relação com os rios e evitarmos o pior.

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Referências bibliográficas citadas:
(1) Goulart, Eugênio Marcos Andrade (org.). Navegando o Rio das Velhas das Minas aos Gerais. Belo Horizonte: Projeto Manuelzão/UFMG, 2005.
(2) Burton, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico. Belo Horizonte: Editora Itatiaia / São Paulo: EDUSP, 1977.
(3) Goulart, Eugênio Marcos Andrade. O Caminho dos Currais do Rio das Velhas – a Estrada Real do Sertão. Belo Horizonte: Coopmed, 2009.