Poesia: Gonzaga Medeiros
Fotos: Rogério Santiago, Fernanda Oliveira e Leonardo Merçon

O Rio Doce, tal como era, depois da tragédia do rompimento da barragem em Mariana, agora só sobrevive no nosso imaginário cultural, na poesia, na prosa e em canções populares. Olhar as imagens do Doce com o mar de lama é como fazer uma homenagem póstuma ao rio.

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Da esq. p/dir.: Foto de Fernanda Oliveira. Rio Doce em Conselheiro Pena.

Procissão das
ÁGUAS MORTAS

autor: Gonzaga Medeiros

Os rios riam, os homens riam.
Os rios choram, os rios morrem, os homens riem.

O Rio das Velhas caiu de cama
no leito do São Francisco.
Os outros afluentes há muito gemiam
no leito da mesma dor.

O Rio São Francisco
caiu de cama no leito do mar.
O mar é um porto de rios mortos,
cemitério dos assoreados.

Jequitinhonha, Rio Doce, Mucuri…
Todos filetes em fila, velas de fogo morto,
procissão das águas mortas,
enterro dos desaguados.

O povo ribeirinho soluça e chora
pelo leito do rio que derramou no mar.
As lavadeiras, à míngua,
já nem cantam cantilenas
com a roupa suja e a língua
sem água para molhar.

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Rio Doce em Linhares, no Espírito Santo.

O mar ainda vai morrer de rio.

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Praia de Regência, em Linhares no Espírito Santo.

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