Ponto 9 : Nenhum rio poderá ser classificado para além de classe II (CONAMA)

Texto: Ohana Padilha

A água é essencial para a sobrevivência de todos os seres vivos e a degradação da mesma compromete toda a vida que dela depende. Assim, para a vida existir é necessário que haja água em quantidade e com qualidade para a possibilidade da sobrevivência de todos os seres vivos.

No ano de 2010, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas), Governo do Estado de Minas Gerais e outras entidades assumiram o compromisso de revitalizar a Bacia do Rio das Velhas até o ano de 2014, surgindo assim, a Meta 2010-2014: navegar, pescar e nadar no Rio das Velhas. Para alcançar a meta o Comitê definiu estratégias, ações de saneamento e recuperação ambiental, visando alcançar a melhoria da qualidade das águas da Bacia e a volta dos peixes ao rio. O foco era despoluir a região mais degradada da Bacia, que vai da foz do Rio Itabirito até o encontro com o Ribeirão Jequitibá.

Associando a Meta 2010-2014 com a diretriz – nenhum rio poderá ser classificado para além da Classe II – da campanha Água com Direito Humano, o presidente do CBH Rio das Velhas, Marcus Vinícius Polignano fala sobre essa relação. “Quando defendemos que o Rio das Velhas deve ser Classe II, significa dizer que é um rio em que podemos navegar, pescar e nadar. O peixe é um bioindicador, ele diz da qualidade da água que ele habita. Na medida em que temos diversidade e quantidade de peixe reflete na qualidade do rio que temos, por isso, o investimento do projeto. O Biomonitoramento é um fornecedor de dados e informações que nos capacitam em avaliar o estágio atual da qualidade do nosso rio e com isso orientar o que estamos fazendo de positivo e o que temos que refazer em termos de projetos e planos para recuperar a qualidade das águas da Bacia”, explica.

Desse modo, pensando nas vidas e na qualidade da água, o CBH Rio das Velhas contratou o projeto “Biomonitoramento da Ictiofauna e Monitoramento Ambiental Participativo na Bacia do Rio das Velhas”, o qual teve seu início no final do mês de fevereiro de 2015 e é viabilizado pelo recurso da cobrança pelo uso de recursos hídricos.

O projeto tem a função de avaliar e monitorar ao longo do tempo, as mudanças ambientais a partir de impactos como o desmatamento das matas, o lançamento de esgotos, de efluentes industriais e de qualquer outro tipo de interferência negativa para o rio. E para esse monitoramento, o projeto vem utilizando o indicador biológico peixe para qualificar a água do Rio das Velhas. “O uso de bioindicadores permite análises de longo prazo, sabendo que a simples presença de algumas espécies de peixes (ou outros organismos vivos) reflete uma estabilidade das condições ambientais que favorecem sua manutenção”, informa Carlos Bernardo Mascarenhas Alves, coordenador do projeto de Biomonitoramento.

Histórico

Desde 1999, a Bacia do Rio das Velhas vem sendo monitorada para o estudo de ictiofauna (conjunto das espécies de peixes que existem numa determinada região). Inicialmente o estudo demonstrou uma grande riqueza da fauna e comprovou a influência negativa da região metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) sobre a distribuição de peixes nas proximidades dos Ribeirões Arrudas e Onça. Na mesma época, o rio Cipó foi estudado e mostrou ter a maior diversidade de espécies que qualquer outro ponto da calha principal, já que é um afluente de grande porte com elevado nível de conservação.

Assim, percebe-se que nas proximidades dos Ribeirões Onça e Arrudas, locais onde havia grandes problemas com a falta de esgotamento a vida dos peixes é prejudicada. Enquanto que no rio Cipó, afluente do Rio das Velhas, o qual é preservado apresentou uma grande diversidade de peixes.

Em 2005, entrou em operação o tratamento secundário da ETE Arrudas. O tratamento primário já havia sido iniciado antes, em 2001. E assim, entre 2006 e 2007, novos estudos foram realizados e comprovaram uma recuperação na fauna nativa de peixes devido a operação da ETE Arrudas.

Em seguida, uma nova ação ocorreu na Bacia, com início da operação da ETE Onça, em 2010. Nessa nova fase, a fauna de peixes continuou a responder positivamente à melhoria da qualidade da água.

Em resumo, a instalação das ETEs Arrudas e Onça foram marcos temporais nas avaliações ambientais utilizando os peixes como bioindicadores e com o projeto atual pretende-se confirmar se esse processo ainda perdura, em 2015 e 2016.

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Da esq. p/ dir.ETE Onça e Rio Cipó em Santana de Pirapama. Créditos: Bianca Aun e Lucas Nishimoto

Metodologia

O projeto possui duas linhas de abordagens. A primeira é o Biomonitoramento da Ictiofauna, que compreende as amostragens de peixes na calha e afluentes do Rio das Velhas. Nas amostragens é analisado a distribuição, riqueza, diversidade e isótopos estáveis que indicam compostos orgânicos provenientes da poluição nos tecidos de peixes. A segunda é o Monitoramento Ambiental Participativo (MAP), com atividades educacionais e de mobilização com a participação dos Subcomitês de Bacia Hidrográfica, escolas e comunidade em geral.

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Coleta de amostragens na calha do Rio das Velhas em Lassance. Crédito: Ohana Padilha

 

Isótopos Estáveis

Os isótopos estáveis fornecem uma informação integrada das relações tróficas e também podem ser usados para determinar contribuições nutricionais. “Com base nas proporções entre as formas de nitrogênio e carbono, e estudando as fontes disponíveis desses elementos na natureza, podemos determinar quais são as fontes utilizadas pelos organismos vivos nesse ambiente. Se hoje se utilizam de matéria orgânica proveniente dos esgotos domésticos, é esperado que as proporções desta fonte diminuam ao longo do tempo, com o crescimento das taxas de tratamento dos esgotos. Ou ainda, em locais menos poluídos (de preferência que possuem condições próximas no natural – áreas de referência) espera-se que as mesmas espécies de peixes apresentem diferentes participações de destas fontes em sua constituição corporal”, explica o coordenador do projeto.

Biomonitoramento da Ictiofauna

Nos meses de junho e julho de 2015, aconteceu a primeira coleta e, em outubro de 2015, a segunda, nas quais 11 (onze) afluentes foram amostrados (Rio Cipó, Rio Jaboticatubas, Ribeirão da Mata, Ribeirão Jequitibá, Rio Taquaraçu, Rio da Onça, Rio Pardo Grande, Rio Pardo Pequeno, Rio Curimataí e Rio Bicudo).

Em agosto de 2015, houve a coleta na calha do Rio das Velhas em oito pontos de amostragem (São Bartolomeu, em Ouro Preto; Bela Fama, em Nova Lima; Santa Luzia; Lagoa Santa; Santa Rita do Cedro, em Curvelo; Senhora da Glória, em Corinto; Lassance e Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma). A segunda coleta de amostragens aconteceu em janeiro de 2016, e recentemente, no mês de junho houve a terceira coleta de amostragens na calha do Rio das Velhas.

Na coleta é realizada a caracterização limnológica básica (anotações de características temperatura, pH, condutividade elétrica e oxigênio dissolvido), registro fotográfico e tomada das coordenadas geográficas. O material que é coletado é processado e os dados são transcritos para fichas próprias. No caso dos peixes, amostras frescas para a análise de isótopos são coletadas e os exemplares são etiquetados e separados por local.

Para a análise de isótopos é coletado amostras de tecidos animais (peixe inteiro ou fragmento muscular) e de vegetais (folhas inteiras da mata e do fundo do rio). Também são coletadas amostras de água, sedimento, de perifíton aderido a pedras do leito do rio, algas filamentosas, de folhas de plantas arbóreas e bambus da mata ciliar e de gramíneas às margens dos rios.

Após o término da preparação do material, as amostras são encaminhadas para o laboratório.

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Metodologia da coleta de amostragens de ictiofauna. Crédito: Ohana Padilha

Monitoramento Ambiental Participativo (MAP)

Nas atividades propostas pelo projeto, há a participação direta da comunidade ribeirinha das áreas rurais e urbanas, membros de Subcomitês, professores e alunos de escolas e comunidade em geral. As atividades tem objetivo de promover processos participativos e de educação ambiental para a capacitação de todas as pessoas e segmentos envolvidos, a fim de fortalecer os laços de pertencimento e envolvimento da comunidade na Bacia Hidrográfica.

Desse modo, o projeto tem a expectativa de que com a capacitação da população seja possível contribuir para a preservação das águas e no auxílio de mobilização de mais pessoas em prol da qualidade das águas.

Nesse contexto, o MAP é constituído por três tipos de atividades, são elas: as oficinas sobre bacia hidrográfica e biomonitoramento; capacitação de professores e estudantes para a atividade de “Monitoramento Participativo das Águas” e os “Amigos do Rio” para a criação da rede de monitoramento participativo.

Oficinas sobre a Bacia Hidrográfica e Biomonitoramento

Foram ofertadas para os Subcomitês, professores de escolas e comunidade em geral 10 oficinas sobre “Bacia Hidrográfica como Instrumento Pedagógico” e “Biomonitoramento”. As oficinas foram distribuídas ao longo dos dois anos de execução do projeto, sendo que quatro já foram realizadas em 2015 nas cidades de Confins, Itabirito e em Belo Horizonte com duas oficinas. Para o 1º semestre de 2016, já foram ofertadas mais três oficinas nas cidades de Ribeirão das Neves, Caeté e Sete Lagoas e para o 2º semestre de 2016 serão realizadas as três oficinas restantes propostas para a região do Baixo Rio das Velhas.

As oficinas têm a duração de 8h e são divididas em duas palestras. A primeira sobre Bacia Hidrográfica e a segunda sobre Biomonitoramento.
A primeira palestra tem a proposta de discutir como a bacia hidrográfica pode auxiliar nos saberes e diálogos referentes a conceitos ambientais. Além de permitir as relações de pertencimento na Bacia do Rio das Velhas. “A Bacia reflete a forma como ocupamos os territórios e fazer com que o público entenda isso é um gancho para pensarmos em um planejamento territorial”, afirma o geógrafo Rodrigo Lemos, responsável pela primeira palestra.

A segunda palestra tem a proposta de mostrar o monitoramento das águas e de reforçar a importância da biodiversidade. “As oficinas tem o objetivo de trazer a informação da pesquisa para a comunidade”, observa a bióloga Juliana Silva França, responsável pela oficina de Biomonitoramento.

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Oficinas sobre Bacia Hidrográfica e Biomonitoramento. Crédito: Ohana Padilha

Capacitação de professores e estudantes para a atividade de “Monitoramento Participativo das Águas”

A atividade de “Monitoramento Participativo das Águas” é desenvolvida junto a 10 escolas da região metropolitana de Belo Horizonte. Tem como proposta capacitar alunos e professores para o monitoramento de córregos próximos as escolas e de conscientizar a importância da participação em busca da preservação ambiental.

Para essa atividade os professores e alunos das escolas escolhidas foram capacitados por meio de aulas teóricas e práticas em campo para a realização do monitoramento de cursos d´água no entorno de suas escolas. Após a capacitação, alunos e professores irão monitorar mensalmente a qualidade da água dos córregos com a proposta de montar uma rede de monitoramento participativo. E por fim, no final do ano, os alunos e professores irão apresentar os resultados alcançados com o monitoramento em seminário que será oferecido pelo projeto.

“O projeto é importante por conscientizar os alunos sobre a preservação dos córregos urbanos que ainda podem ser mantidos”, observa o professor de biologia da Escola Estadual Maria Carolina Campos, Karlyle Miyanoto Pedrosa.

O professor ainda completa que o projeto potencializa a atividade de educação ambiental nas escolas, o que é mantido em segundo plano nas instituições educacionais. “A coleta, análise de dados e atividade prática são importantes para a reflexão dos jovens sobre o cuidado com o meio ambiente”, reflete.

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Capacitação de alunos. Crédito: divulgação

Amigos do Rio

Com o intuito de integrar esforços para minimizar a mortandade dos peixes, melhorar a qualidade das águas dos rios e de ampliar o monitoramento na Bacia do Rio das Velhas, o projeto “Biomonitoramento da Ictiofauna e Monitoramento Ambiental Participativo na Bacia do Rio das Velhas”, dará continuidade ao “Amigos do Rio”.

Os “Amigos do Rio” é uma iniciativa já consolidada ao longo de toda a Bacia do Rio das Velhas, a qual já possui pessoas engajadas e decididas a se envolverem com as questões relativas ao Rio.

Os Amigos do Rio são pessoas que tem um contato direto com o Rio das Velhas e que atuam como parceiras no alerta sobre as alterações na aparência da água, na ocorrência de mortandade de peixes e no auxílio do levantamento de dados básicos da qualidade das águas.
Para o monitoramento, foram selecionados 20 trechos da calha, onde houve um mapeamento de ribeirinhos para serem os “Amigos do Rio”. Após a seleção os ribeirinhos foram treinados para observarem o Rio de acordo com critérios estabelecidos e no alerta de possíveis mortandades. Assim, os “Amigos do Rio” são uma rede de informações do Monitoramento Ambiental Participativo.

Adair de Oliveira, Beltrão, UTE Rio Bicudo

No distrito de Beltrão, em Corinto, o ex-balseiro Adair de Oliveira conta que já viu o fundo do Rio das Velhas. “Já vi a água do Rio das Velhas limpa. De ver tudo no fundo e tenho a esperança de que um dia teremos essa oportunidade de novo”, comenta.

Adair é Amigo do Rio desde 2007 e foi convidado pela iniciativa por trabalhar, na época, na balsa que liga o distrito de Beltrão a cidade de Lassance. “Sempre desfrutei da área do Rio para o plantio, roça, dependendo dele. O Velhas é muito importante para nós, pois é rico em vida. É o Rio mais criativo que tem pela qualidade dos peixes e pela renda que gera na cidade”, conta.

O ex balseiro fala que as águas do Velhas na região sofre com as águas de má qualidade recebidas pelos Ribeirões Arrudas, Onça e Jequitibá e pela quantidade de veneno que cai nas águas pelas atividades de agricultura. “Na região há muita a presença de veneno que matam os peixes e as outras vidas do Rio”, relata.

Como mora a poucos metros do Rio das Velhas, Adair vai quase todos os dias às margens do rio para analisar a cor da água, o odor e para ver se algum peixe está morto. Ele fala que quando há mortandade de peixes liga para os responsáveis pelo projeto para colhê-los e para descobrirem o motivo da morte. Mas segundo ele, há anos que não têm mortandades em seu trecho de monitoramento e informa que o rio tem melhorado nos últimos anos.

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Adair de Oliveira, Amigo do Rio em Beltrão. Créditos: Ohana Padilha e Lucas Nishimoto.

Pia, São Bartolomeu, UTE Nascentes

“Sou Amiga do Rio porque o amo! Sempre fui muito ligada com a água. Quando tenho um tempinho vou ao Rio, olho, escuto seu barulhinho e dou um mergulho. Isso lava a minha alma”, relata Pia Márcia Chaves Guerra, Amiga do Rio no distrito de São Bartolomeu, em Ouro Preto.
Pia se diz privilegiada por morar perto da nascente do Rio das Velhas e informa que em sua região quase não há peixes devido a pouca água e por outros aspectos naturais da região.

A Amiga do Rio fala que as pessoas que moram no entorno do Rio das Velhas, na localidade de São Bartolomeu estão aos poucos se mobilizando para melhorar o convívio com as águas pela mobilização as pessoas estão se conscientizando no cuidado com o rio.

Para analisar os aspectos da água, ao ir trabalhar pela manhã, Pia passa pela ponte do Rio das Velhas do distrito e observa a cor, o odor e se há algo o prejudicando. Além disso, para contribuir com a preservação, Pia realiza trabalhos de educação ambiental na escola em que trabalha. “A importância é de fazer a importância é de fazer com que a comunidade olhe diferente para o Rio. Um olhar de cuidado e de entender mais que nunca que o Rio é a vida da localidade. Se o Rio morre as pessoas também morrem. Cada um tem que fazer a sua parte em seu cantinho do Rio e ai, juntando todo mundo, conseguiremos ter um Rio melhor”, finaliza a Amiga do Rio.

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Pia, Amiga do Rio em São Bartolomeu. Créditos: Bianca Aun e Ohana Padilha

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