Ribeirinhos e pesquisadores relatam que fortes chuvas em BH estão causando mortandade de peixes nas regiões do Baixo e Médio Baixo Rio das Velhas

“Quando chove forte em Belo Horizonte, é praticamente certo vermos mortandade de peixes no rio tempos depois. Quando então passa dois, três meses sem chover e depois chove, aí é um desastre”. É assim que o ribeirinho Nelson Gonzaga, morador de Lagoa de Santo Antônio, em Jequitibá, observa um curioso fenômeno, também reconhecido por estudiosos e pesquisadores: a relação entre fortes chuvas que caem em um curto período de tempo na Região Metropolitana Belo Horizonte (RMBH) e a ocorrência de mortandade de peixes, tempos depois, em pontos a jusante no Rio das Velhas.

As mortandades, segundo ribeirinhos, membros de subcomitês e ambientalistas locais, estão sendo observadas principalmente nas regiões do Baixo e Médio Baixo Rio das Velhas. Os motivos, porém, ainda não são conhecidos. “De fato a mortandade é recorrente, quase sempre que o nível do rio é elevado em curto espaço de tempo. Todavia, não temos comprovação se é resultado do revolvimento do fundo do rio, da ação de mineradoras em despejar rejeitos rio abaixo, ou mesmo do próprio transbordo das ETEs (Estações de Tratamento de Esgoto)”, afirmou o mobilizador do projeto Manuelzão, Erick Sangiorgi.

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Várias mortandades teriam sido presenciadas por ribeirinhos no atual período chuvoso,
desde outubro de 2016. (Crédito: Projeto Manuelzão)

Ainda segundo ele, várias ocorrências foram presenciadas por ribeirinhos no atual período chuvoso, desde outubro de 2016. Sangiorgi lembra que as cheias são períodos estratégicos para a manutenção da vida no rio. “São momentos cruciais na reprodução dos peixes, é quando ocorre a piracema. E o que os peixes encontram é justamente essa barreira química na Região Metropolitana de Belo Horizonte”, conta.

O conselheiro do subcomitê do Rio Bicudo, Eduardo Alvarenga Leal, também reconheceu que se trata de um problema antigo. “O CBH Velhas é o único comitê do Brasil com atuação descentralizada. Por mais que a nossa gestão tenha foco na bacia do Rio Bicudo, este é um problema que perpassa todos os subcomitês e a bacia do Rio das Velhas como um todo. Por isso essa questão é frequentemente discutida nas reuniões”, afirma.

O biólogo, mestre em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre, e pesquisador do NuVelhas – Projeto Manuelzão, Carlos Bernardo Mascarenhas, conta que as primeiras chuvas do período chuvoso são sempre as mais prejudiciais. “Elas acabam carreando para o rio muita coisa que se acumulava na bacia de drenagem: no solo das cidades e no campo, e aqui tem o problema dos fertilizantes e agrotóxicos. Com isso é lançando em breve espaço de tempo uma carga variada de poluição no rio”, diz.

Ainda segundo Mascarenhas, o aumento abrupto na vazão do Rio das Velhas, durante os períodos de forte chuva na RMBH, acaba revelando outro problema da bacia. “Em função do passivo ambiental do sedimento depositado em seu leito, todo esse volume expressivo de matéria orgânica e poluentes acumulados durante décadas, até o início de operação das ETEs, acaba sendo revolvido e transportado para outras áreas, modificando as características do ambiente aquático”, conta.

montagem2_cacaerio Biólogo Carlos Bernardo Mascarenhas (à direita) destacou que que as primeiras chuvas do período chuvoso são sempre as mais prejudiciais. (Crédito: Ohana Padilha – CBH Rio das Velhas/TantoExpresso)

Pesquisas para desvendar causas

O mobilizador Erick Sangiorgi afirmou ainda que o projeto Manuelzão e o CBH Rio das Velhas têm uma navegação prevista para ocorrer em breve no rio, na região mais próxima a Belo Horizonte. “Durante essa navegação, vamos investigar a fundo o que pode estar causando isso, marcar pontos estratégicos para monitoramento e visitas em trechos. Sabemos que eles estão morrendo por falta de oxigênio, e não por contaminação”, conclui.

Ainda que preocupante, Mascarenhas afirma que o cenário já foi muito pior. “Mesmo isso sendo recorrente, é possível dizer que a ocorrência de mortandades de peixes tem diminuído de frequência ao longo desses anos. São menos ocorrências a cada ano e com morte de menor volume de peixes também”, afirma. O biólogo atribui essa redução ao aumento no tratamento de esgoto da RMBH, bem como às ações de mobilização social promovidas ao longo da bacia.


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