Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas a crise da escassez de água estava anunciada

Texto: Natália Fernandes Nogueira Lara
Fotos: Bianca Aun, Copasa, Michelle Parron, Renato Crispiniano e Tanto Expresso

Os impactos da crise da falta de água foram sentidos ou pelo menos conhecidos pela maioria da população nos últimos meses. É verdade que houve queda no volume das chuvas, entretanto, segundo afirmação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas), além de o problema não ser somente a falta de chuva, a escassez também não pode ser considerada uma surpresa.

Segundo o presidente do CBH Rio das Velhas, Marcos Vinicius Polignano, desde o final de 2013 o Comitê observou que a situação desenhava-se de forma crítica. “Conflitos pelo uso da água na região do Alto Rio das Velhas chamaram a atenção, fazendo com que o Comitê acionasse o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) solicitando que interviesse no processo. À época foi criado um grupo para a gestão da situação mas que acabou não produzindo resultados”, explica.

No mês de outubro de 2014 a vazão do Rio das Velhas chegou a 9m³/s, por vezes menos que isso, até 8m³/s na região de Bela Fama, abaixo da média histórica e dos quais 6m³/s estavam sendo retirados para abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte. A situação preocupante fez com que o Comitê chamasse a imprensa para comunicar o fato e alertar a população quanto aos cuidados necessários e a possibilidade da falta de água potável na Grande BH. Para o CBH Rio das Velhas é fundamental que os órgãos executores e o governo assumam problemas como este e elaborem ações voltadas à gestão dos recursos hídricos.

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Rio das Velhas em Várzea da Palma (Set/2014) – Crédito: Renato Crispiniano

Na visão do Comitê, o problema vai muito além da falta de chuvas. “Nós tivemos uma escassez que não foi só de chuva ou de água, mas de gestão. Ficamos cercados de repente, mas não podemos dizer que fomos surpreendidos. O que houve foi o impacto de um fator limitante, desencadeante, que foi a diminuição de chuva em cima de um sistema que já estava em exaustão”, comenta Polignano.

Neste contexto, o resultado é a busca por soluções de curto prazo. “Nós temos visto no modelo da solução, da superação da crise, como o melhor caminho sendo o do curto prazo. Entretanto, tenho dito que nós não vamos resolver problemas que foram produzidos a médio e longo prazo, a curto prazo. Isso não existe, não existe mágica. O que nós estamos passando foi construído por muito tempo e a solução demanda investimento no mesmo sentido, resgatando as questões de longo prazo”, defende Polignano.

Além disso, para Polignano, armazenar água construindo represas e barragens não é solução. “Nós vínhamos num limite, sugando o rio ao extremo. Bastou apenas um fator que impactasse para chegar a crise. E é por isso que a solução não pode ser simplista. Não se pode reduzir a um mero armazenamento de água. O fato é que o sistema está perdendo a capacidade de responder a um fator de impacto. O rio não está retornando ao seu estado anterior, mas sim a uma situação mais crítica. Barrar um rio que está morrendo é suicídio coletivo”, afirma.

É preciso, por exemplo, voltar a ter o solo como um grande armazenador de água, com toda a capacidade em termos de cobertura vegetal de área de recarga. São ações essenciais e que precisam ser retomadas para que se pense em recuperação do rio.

O sistema atual necessita de gestão em diversos níveis, os quais precisam estar alinhados. Demanda-se políticas de Estado, e não só de governo. O planejamento e as soluções precisam extrapolar quatro anos. É praticamente obrigatório que se tenha uma projeção de futuro, ao invés de uma execução do presente, danosa para o meio ambiente, por que diz do que vamos destruir, o que vamos usar e não o que iremos preservar, como tem ocorrido atualmente.

Medidas de curto a longo prazo

O Governo de Minas e a Companhia de Saneamento do Estado de Minas Gerais (COPASA) anunciaram no final do mês de janeiro medidas para o enfrentamento da crise hídrica em curto, médio e longo prazo.

Segundo o governador do Estado, Fernando Pimentel, o problema atinge tanto a Região Metropolitana de Belo Horizonte quanto o interior, bem como as cidades abastecidas por serviços de água autônomo e pela Copasa. “Devido à situação crítica que vive o estado por causa da escassez de água, uma força tarefa formada pelas secretarias de Planejamento, Governo, Obras, Meio Ambiente, Copasa, entre outros, foi criada pelo Governo para centralizar e coordenar as ações”, comentou.

“Para o curto prazo, identificamos a possibilidade de utilizar uma Parceria Público Privada já existente para aumento de captação de água. Para o médio e longo prazos, foram identificados projetos e programas que estavam dispersos na administração estadual e até federal. São projetos de construção de pequenas barragens em bacias hidrográficas sem uma centralização e sem fazer parte de um esforço e um planejamento integrados”, explicou o governador.

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Em cima: Copasa convoca entrevista coletiva para tratar da crise hídrica (Jan/2015). Em baixo: O Governo de Minas também convoca a imprensa para apresentar medidas que serão adotadas na gestão da crise hídrica.

O que diz o Comitê

De acordo com o presidente do CBH Rio das Velhas, Marcus Vinícius Polignano, as ações propostas para a crise devem ser avaliadas e analisadas por todos os órgãos envolvidos, principalmente os Comitês.

Para ele, todas as obras visam ao aumento da captação de água dos rios para os sistemas que abastecem a Região Metropolitana, mas deveriam priorizar a gestão das bacias. “Os reservatórios estão vazios porque a água dos rios não está sendo renovada e preservada. Não adianta ter chuva se não cair em terreno fértil e infiltrar no lençol freático que vai abastecer os rios na seca ao longo do ano. Projetos desse tipo não vão dar conta do tamanho dos problemas que temos. A crise é de gestão de bacias”, afirma.

Como avalia, as ações de preservação e revitalização devem ser constantes. “Temos que salvar os rios, não adianta só pensar em encher a caixa d’água. Reservatórios nós temos, mas eles estão vazios, porque não temos água”.

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Rio das Velhas em Raposo (Jan/2015) – Crédito: Bianca Aun

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