Em 2013, Medelín lançou um concurso público internacional que convocava arquitetos de todo o mundo a enviar propostas de como integrar o rio à cidade e, assim, criar novos espaços públicos de lazer. O projeto vencedor se chama Parque Botânico Rio Medelín e, desde então, sua implantação está a todo vapor.

Todo esse processo de transformação em curso foi apresentado na manhã desta quarta-feira (29), segundo dia de III Encontro Internacional de Revitalização de Rios e I Encontro das Bacias Hidrográficas de Minas Gerais, por Sebastian Monsalve Gomez, um dos arquitetos responsáveis pelo projeto.

Gomez contou que foi a vontade da população em transformar à cidade – que carregava marcas recentes e muito fortes da violência, do narcotráfico e das guerrilhas – que culminou neste projeto que integra mobilidade urbana, criação de espaços públicos e de vínculo com o rio. “O ponto de mudança de Medelín foi não querer mais a violência, mas sim a vida, o desenvolvimento da cidade e das pessoas. Não são as construções que transformam; são as iniciativas de mudança das pessoas que transformam”, contou.

O projeto custará um total de US$ 4 bilhões, financiados a partir de parcerias público-privadas. O escopo inclui ações de saneamento e urbanismo e busca articular os corpos d’água, os vazios verdes e as infraestruturas subutilizadas por meio da recuperação do rio – todo construído com ampla participação comunitária.

“A gente quer criar espaços públicos para que as pessoas vejam o rio. Visibilizando o rio, a gente acredita que essas pessoas poderão lutar por sua recuperação”, explicou Gomez.

Rios da capital mineira

O geógrafo Alessandro Borsagli é pesquisador atuante nas áreas relacionadas ao espaço urbano, especialmente no que diz respeito aos processos de desenvolvimento, urbanização e requalificação. Autor do livro Rios Invisíveis da Metrópole Mineira, ele apresentou um pouco da obra que propõe uma reflexão sobre como os elementos naturais foram afastados do convívio e como ainda podem ser reinseridos na vida da sociedade belo-horizontina.

Borsagli contou também as motivações que levaram os representantes da capital mineira, que crescia vertiginosamente, a adotarem o modelo de canalização de rios, ainda no início do século passado. “As justificativas por parte do poder público, que aparecem em todos os relatórios que tratam da canalização, são as enchentes e erradicação dos transbordamentos. Mas o que se viu é que, pouco tempo depois, vários cursos d’água, que anteriormente não apresentavam problemas para a cidade, transbordaram. Ou seja, a técnica da canalização já se mostrou àquela época que não deveria ser continuada”.

No mesmo contexto, o arquiteto Roberto Andrés falou sobre a meta de se nadar e pescar em rios urbanos no Brasil. Em tom de ironia, inicialmente brincou – com a exibição de fotomontagens – que a proposta belo-horizontina de canalizar e cobrir seus corpos d’água foi importada por cidades como Londres e Paris, onde os rios são pontos importantes de vínculo com a população.

Andrés também rechaçou a ideia de que a construção continuada de mais vias para automóveis nas cidades são benéficas para se melhorar o tráfego e o deslocamento das pessoas. “Essa ideia é mentirosa. Os automóveis funcionam como os gases. Quanto mais espaço você abrir num tubo, ele vai sempre ocupar esse espaço por completo. Se você reduzir, ele também vai se adequar aquele espaço. Então, quando alguém vier falar que vai fazer uma pista nova para carro, que vai fazer um viaduto, que vai cobrir um rio para melhorar o trânsito, pense: isso não vai dar certo, afinal nunca deu certo em lugar nenhum”.

O arquiteto também lembrou as ações populares que visam a revitalização dos rios urbanos de Belo Horizonte, apesar da letargia do poder público municipal para a implantação de políticas de saneamento e urbanização.

Veja a apresentação:

 

Bacias do Leste e Jequitinhonha

Ao final da manhã de conversas, Alice Lorentz, do Comitê da Bacia Hidrográfica do Mucuri, e Cleá Amorim de Araújo, do CBH Rio Araçuaí, apresentaram um retrato das bacias do Leste e Jequitinhonha de Minas Gerais, severamente impactadas por ações antrópicas, como a agricultura e a falta d’água, e os desafios da atuação dos Comitês em meio a esses contextos. O engenheiro agrônomo Luís Ricardo de Souza e a bióloga Janaína Mendonça Pereira também compuseram a mesa e somaram às discussões.

Veja as apresentações:

 

 

Na parte da tarde de hoje, ainda terão as palestras ‘Os desafios e avanços da universalização do saneamento básico no Brasil’, por Rubens Filho, do Instituto Trata Brasil; ‘Visão geral sobre o reuso de água no Brasil’, do professor José Carlos Mierzwa (USP); ‘Os 20 anos da Lei das Águas, por Wagner Soares Costa (FIEMG), José Claudio Junqueira (Escola Superior Dom Helder Câmara) e Maria de Fátima Chagas; ‘Rios de Preservação Permanente’, pelo Professor Paulo dos Santos Pompeu (UFLA); e ‘Conjuntura das bacias hidrográficas do Paranaíba, Paraíba do Sul e Grande’, por Gustavo Mallaco (CBH Rio Paranaíba), Matheus Cremonese (Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul) e Paulo Roberto Machado Carvalho (CBH Rio Grande). Às 18h, haverá ainda o Encontro da Sociedade Civil pelas Águas.

O III Encontro Internacional de Revitalização de Rios e I Encontro das Bacias Hidrográficas de Minas Gerais seguem ainda até amanhã (30) com uma programação extensa.

Veja as fotos da manhã deste segundo dia de evento:

<a href="https://flic.kr/s/aHsksfS6fE" target="_blank">Click to View</a>

A revitalização em debate

Com o objetivo de apresentar as melhores experiências sobre a preservação de rios no mundo, tanto no campo quanto na cidade, o III Encontro Internacional de Revitalização de Rios e I Encontro das Bacias Hidrográficas de Minas Gerais irão reunir, entre 28 e 30 de novembro, no Minascentro, pesquisadores dos Estados Unidos, Europa e América Latina.

Os encontros são uma realização do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas), do Fórum Mineiro de Comitês de Bacias Hidrográficas (FMCBH), Projeto Manuelzão, Agência Peixe Vivo e Governo do Estado de Minas Gerais, por meio do IGAM (Instituto Mineiro de Gestão das Águas).


Mais informações:
revitaliza@cbhvelhas.org.br