Cultura e turismo se unem para impulsionar a cadeia produtiva da jabuticaba em distrito de Ouro Preto, que já conta com Indicação Geográfica e uma das festas mais tradicionais da região
Em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto, a jabuticaba está no centro de um grande movimento de transformação econômica, cultural e ambiental. A fruta é protagonista do Arranjo Produtivo Local (APL) batizado de “Jabuticaba de Cachoeira do Campo – A Ouro Preto de Minas”, que tem mobilizado produtores, instituições públicas e a sociedade para fortalecer a cadeia produtiva da fruta.
Com apoio de diversas instituições – dentre elas o Fundo de Desenvolvimento Econômico de Ouro Preto (FUNDES), a Agência de Desenvolvimento Econômico e Social de Ouro Preto (ADOP), a Sumo da Terra, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Tecnologia, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, a Secretaria Municipal de Agropecuária e o Lions Clube de Cachoeira do Campo – o projeto visa organizar e profissionalizar a produção de jabuticaba e seus derivados, como geleias, licores, vinagres e doces, integrando produtores em rede, incentivando o turismo rural e gerando oportunidades sustentáveis para a comunidade.
Entre os muitos rostos por trás dessa transformação está o da produtora Rosangela Silva Guimarães, uma das referências locais quando o assunto é jabuticaba. Com uma produção totalmente artesanal e baseada nas frutas de seu próprio quintal — onde cultiva dez jabuticabeiras centenárias — Rosangela conta que a relação com a fruta vem de gerações. “Faço meus produtos desde sempre, mas antes era do jeito que aprendi com a minha mãe e minha avó. Não tínhamos essa visão de negócio”, relata.
A virada começou com uma oficina promovida pela chef Milsane Sebastião, de Sabará, realizada em Cachoeira do Campo. “A partir dessa oficina, além da diversificação de produtos, aprendemos também a tomar para a gente o que é nosso. Ganhamos a sensação de pertencimento”, afirma Rosangela.
Ela destaca que mais de 50 pessoas participaram das capacitações e, a partir disso, muitos passaram a encarar sua produção com uma nova perspectiva: como um empreendimento com potencial real de crescimento. Hoje, ela é reconhecida na região, atraindo turistas interessados em seus licores, doces e compotas. “Não tem como separar a história de Cachoeira do Campo da história da jabuticaba. Sempre que recebo visitantes, conto a minha história, a da minha família, da cidade, do estado e do país. Está tudo interligado”, diz. Rosangela ainda lembra com orgulho que, antigamente, Sabará comprava jabuticaba produzida em Cachoeira do Campo.

Rosangela Guimarães resgatou receitas de família e transformou produção artesanal em fonte de renda e fortalecimento cultural
A prefeitura tem atuado diretamente no processo de consolidação do APL, como explica o secretário de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Tecnologia de Ouro Preto, Felipe Guerra: “A consolidação de um Arranjo Produtivo Local da Jabuticaba como política pública de desenvolvimento territorial envolve um conjunto articulado de ações estratégicas, institucionais e operacionais. A prefeitura participa do grupo gestor do projeto e, com base nos dados diagnósticos e no mapeamento dos produtores, pretende colaborar com legislações específicas e ações de fortalecimento da cadeia.”
Segundo Guerra, o projeto tem papel estratégico na política municipal. “Ele é fundamental para impulsionar a economia local, ao valorizar a jabuticaba — fruta historicamente ligada a Cachoeira do Campo. Por meio dessa iniciativa, buscamos promover a diversificação econômica, incentivando a agricultura familiar, o que irá gerar empregos e renda, além de fortalecer a identidade cultural e turística do município.”
Entre janeiro e abril de 2025, foi realizada uma pesquisa que revelou um panorama inédito da cadeia produtiva da jabuticaba em Ouro Preto, abordando desde o cultivo da fruta in natura até a produção e comercialização de seus derivados. Com base em entrevistas com 201 produtores da fruta e 57 de derivados, o estudo apontou que a atividade é majoritariamente familiar, feita em pequena escala e enraizada no território local, mas ainda marcada pela informalidade e baixa renda. O levantamento também destacou o potencial dos produtos derivados, cuja produção é liderada em grande parte por mulheres, com maior valor agregado e diversidade de itens, como licores, doces e cosméticos — além do forte valor simbólico e cultural da jabuticaba para a região, que serviu de base para a criação do projeto.
Saulo Filardi, da Associação Sumo da Terra – Ideias Globais, Ações Locais, entidade responsável pela execução das ações do projeto ‘A Ouro Preto de Minas’, explica que um dos principais desafios do projeto está no fortalecimento da economia criativa. Para ele, o trabalho com doceiros, artesãos e pequenos produtores locais exige uma mudança de mentalidade sobre o valor da jabuticaba no mercado. “Nosso maior desafio é justamente fazer com que as pessoas envolvidas na cadeia produtiva da fruta compreendam sua importância, o potencial econômico que ela tem e como isso pode ser transformado em oportunidades reais”, afirma.

Para Saulo Filardi, o maior desafio é valorizar a jabuticaba como símbolo cultural e motor do desenvolvimento local, conectando saberes tradicionais à inovação
Esse processo, segundo Saulo, é gradual e demanda o envolvimento de toda a comunidade. “Estamos criando, aos poucos, uma cultura de pertencimento, de valorização e de busca por qualidade, o que exige equilíbrio e diálogo com todos os atores locais.” Ele ressalta que o projeto contempla uma ampla gama de produtos, dos alimentícios ao artesanato, todos vinculados à identidade da jabuticaba de Cachoeira do Campo, cuja presença sempre foi abundante, mas com retorno financeiro ainda limitado. “O grande desafio é transformar essa riqueza simbólica e natural em desenvolvimento concreto para a região.”
Na mesma linha, o secretário Felipe Guerra destaca que o projeto tem papel estratégico no fortalecimento da economia local. “Ao valorizar a jabuticaba como um produto com potencial de mercado, o projeto estimula a produção agrícola sustentável, cria novas oportunidades de negócios artesanais e turísticos, e atrai visitantes interessados na cultura local, no turismo de experiência e na gastronomia”, afirma. “Isso contribui para a ampliação da renda dos produtores rurais e para a geração de empregos diretos e indiretos.”
Identidade geográfica e valorização cultural
O projeto, que já conquistou a Indicação Geográfica (IG) da jabuticaba de Cachoeira do Campo — selo concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) que reconhece produtos cuja qualidade está diretamente ligada ao seu território de origem. Com essa certificação, a jabuticaba se consolidará como símbolo regional, ganhando mais visibilidade, valor agregado e potencial turístico.
Esse movimento se manifesta na cultura local por meio da Festa da Jabuticaba de Cachoeira do Campo, realizada todos os anos desde 1992. Promovida pelo Lions Clube local, a festa é um dos eventos mais tradicionais do distrito e simboliza o orgulho da comunidade em torno da fruta. A programação gratuita, que se estende por três dias, combina gastronomia típica, artesanato, música, atividades culturais e ações de valorização da jabuticaba como patrimônio imaterial.

Doces, licores e compotas mostram o potencial dos derivados da jabuticaba para impulsionar a economia familiar e valorizar a cultura de Cachoeira do Campo
Oficinas de capacitação
Com foco na qualidade, sustentabilidade e valorização da cultura local, o projeto “A Ouro Preto de Minas” já promoveu diversas oficinas práticas, como o plantio de mudas e a produção de kombucha com jabuticaba. Além das capacitações, o projeto também está mapeando as jabuticabeiras da região para criar um banco de dados estratégico e pretende cadastrar até 500 produtores. A partir desse cadastro, os participantes passam a ter acesso a treinamentos, inovações tecnológicas e apoio para comercialização dos produtos.
Carlos Eduardo da Silva, produtor de jabuticaba há mais de 20 anos, foi um dos primeiros a se inscrever no projeto. Ele conta que, desde então, percebeu um aumento expressivo no interesse das pessoas não apenas pela fruta in natura, mas também pelos seus derivados. “Com a jabuticaba, produzo licores, geleias e outros produtos. Agora, com a procura crescendo, pretendo melhorar meu espaço de produção, investir em novos equipamentos e, principalmente, compartilhar meu conhecimento com outras pessoas”, afirma o produtor, que já vislumbra um futuro mais promissor para a cadeia produtiva da fruta na região.

Assessoria de Comunicação do CBH Rio das Velhas:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Matéria originalmente publicada na Revista Velhas nº22
*Texto: Mariana Martins
*Fotos: João Alves
