A educação ambiental como mecanismo de gestão de uma bacia hidrográfica

Texto: Luiza Baggio

A gestão de uma bacia hidrográfica é uma grande desafio e aos poucos vem conquistando seu espaço e tornando-se um importante instrumento administrativo para solucionar problemas relacionados com a água, envolvendo todos os fatores que são responsáveis pelo seu impacto. Na esteira desse processo, percebe-se que um dos principais instrumentos para a concretização dessa política é o trabalho de educação ambiental, com o objetivo de ser o espaço de diálogo e de construção coletiva de propostas de ações, bem como de definição de áreas de atuação e responsabilidades.

Pensando nisso, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas) iniciou, em 2015, a execução do Projeto Rede Asas do Carste, por meio do projeto de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e dos Subcomitês do Carste e Ribeirão da Mata. Ao todo serão dois anos e meio de monitoramento em seis lagoas cársticas dos municípios que integram a Bacia do Rio das Velhas.

O Rede Asas do Carste tem como objetivos principais envolver as escolas na proteção e preservação do meio ambiente e fazer com que os alunos se sintam conhecedores e participantes na construção e conscientização das mudanças ocorridas no local em que vivem. Para isso, tem como proposta o diálogo e a parceria com escolas, alunos e professores da rede municipal e estadual instaladas próximas às lagoas cársticas, situadas nos municípios de Lagoa Santa (Lagoa Central e margem do Rio das Velhas), Confins (Lagoa Vargem Bonita), Pedro Leopoldo (Lagoa Santo Antônio e Sumidouro), Matozinhos (Lagoa Fluminense), Funilândia (Lagoa d’Fora) e Prudente Morais (Lagoa do Cercado).

O coordenador-geral do Subcomitê Ribeirão da Mata, Procópio de Castro, esclarece que o Rede Asas do Carste é um projeto transdisciplinar, que engloba disciplinas como a Biologia, História, Geologia e Paleontologia e transinstitucional, pois envolve a UFMG, o CBH Rio das Velhas, os Subcomitês Ribeirão da Mata e Carste, bem como a sociedade civil, escolas e alunos. “O Rede Asas do Carste possibilita criar uma geração que entende não só sobre o meio ambiente como também gera uma ponte para a metodologia científica da academia. Além disso, permite que os alunos e professores das escolas participantes entendam o seu entorno e o sistema ambiental em termos do aquífero da pré-história e de um possível bioindicador das águas e da região cárstica de Lagoa Santa”, explica.

O coordenador-geral do Subcomitê Carste, Daniel Duarte, acrescenta que o Rede Asas do Carste possui uma proposta heterogênea, apesar do foco ser sempre a Educação Ambiental. “Digo heterogênea, pois, os objetivos vão desde resultados simples e de curto prazo, como proporcionar um contato mais intenso dos alunos com o meio ambiente que, mesmo estando no cotidiano deles, às vezes passa despercebido, até resultados de médio e longo prazos, que buscam ‘costurar’ na grade escolar destes alunos uma temática ambiental regional”, afirma.

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Da esq. p/ dir.: Procópio de Castro, SCBH Ribeirão da Mata/Daniel Duarte,  SCBH Carste

Metodologia do Rede Asas do Carste

Primeiro os alunos foram capacitados para executarem o projeto e receberam o Guia de Campo, material que inclui o mapa onde estão todas as lagoas que serão monitoradas com espaço para preenchimento de dados de cada aluno participante, instruções gerais de como proceder no campo, informações sobre as regiões cárstica com dados sobre sua geologia e aves aquáticas, como identificar e descrever uma ave e a ficha de campo para anotar informações sobre as espécies observadas. Só na região do Carste de Lagoa Santa são cerca de 53 espécies de aves já catalogadas.

Posteriormente, os alunos iniciaram as visitas de campo com documentação fotográfica e coleta de dados (identificação e contagem das aves, medições das lagoas, coleta de dados climáticos) da avifauna nas lagoas cársticas e trabalhos em sala de aula e/ou laboratório (análise de dados, elaboração de relatórios, experimentos). As visitas serão realizadas durante as quatro estações do ano.

Durante o trabalho de campo, o professor do Departamento de Biologia Geral da UFMG, José Eugênio Cortes Figueira, que desenvolve o monitoramento das aves aquáticas, explicou para os alunos participantes do Rede Asas do Carste que o monitoramento do ciclo de lagoas temporárias e suas aves aquáticas é fundamental para entender as mudanças climáticas e a maneira correta de atuar na conservação ambiental. Questões como a relação entre clima, planeta e desmatamento, as características das lagoas e as espécies de aves que as frequentam, para onde as aves vão quando deixam as lagoas cársticas, dentre outras serão respondidas pelos alunos durante a execução do Asas do Carste.

O coordenador-geral do Subcomitê Carste, Daniel Duarte, explica que o projeto ainda está no início. “Podemos dizer que ele está saindo da fase de incubação e iniciando a eclosão. Ainda há muito trabalho e muitos desafios, porém, pela determinação que os parceiros, voluntários, escolas, etc, têm empreendido, logo, logo, mais resultados surgirão”, afirma.

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Visita de campo às lagoas cársticas

Entenda o carste

O carste é um tipo de relevo formado pelo efeito corrosivo da água sobre rochas solúveis como o calcário, quartzitos e basaltos. O efeito das águas sobre estes tipos de rocha propicia o aparecimento de características físicas muito peculiares, tais como, paredões rochosos sulcados e corroídos ao longo do tempo, cavernas subterrâneas, lagoas, sumidouros e depressões, que possuem rico acervo paleontológico e arqueológico.

No Brasil, uma das principais áreas de relevo cárstico encontra-se naregião da Área de Proteção Ambiental (APA) Carste de Lagoa Santa (MG). Nessa região, a ação solúvel da água sobre as rochas calcárias propiciou a formação de estruturas típicas do carste, como as cavernas.

Na pré-história, essas cavernas abrigavam vida. Por isso, são reconhecidas, não só pela sua riqueza natural, como também por sua importância para a Arqueologia e Paleontologia nacional e mundial.

A corrosão das rochas pela ação da água cria diversos tipos de formações. Algumas dessas são visíveis em superfície, constituindo o que é chamado de exocarste, como por exemplo, lapiás (sulcos formados na superfície das rochas calcárias pela ação corrosiva das águas), dolinas (depressões de formato elíptico ou circular formadas em terrenos calcários pela ação solvente da água sobre as rochas ou pelo desmoronamento do teto de cavidades), uvalas (depressões constituídas pela junção de duas ou mais dolinas), poliés (depressões de grandes extensões caracterizadas por fundo plano e, geralmente, atravessadas por um fluxo contínuo de água e rodeados por paredões rochosos), vales cegos (vales onde a água subterrânea aparece na superfície por uma surgência e termina de forma repentina em um sumidouro) e maciços (grandes planaltos cárticos limitados por paredões rochosos escarpados com lapiás que alojam vaes cegos, sumidouros e ressurgências). Outras são subterrâneas e formam o endocarste, cujas principais feições são as cavernas.

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De cima p/ baixo: Lagoa do Sumidouro, Vila do Sumidouro/Lapa Vermelha, Matozinhos. 

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