A plena revitalização do Rio das Velhas ainda é uma meta a ser perseguida

Texto: Renato Crispiniano
Fotos: Bianca Aun, Lucas Nishimoto e Michelle Parron

Em 2005, o Projeto Manuelzão e a sociedade mineira assinaram com o Governo do Estado Minas Gerais, as prefeituras e o setor empresarial compromisso quanto à revitalização da bacia do Rio das Velhas.

Com a Meta 2010, o foco era despoluir a região mais degradada da bacia, que vai da foz do Rio Itabirito até o encontro com o Ribeirão Jequitibá. A Meta, respaldada pelo Plano Diretor do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, aprovado em 2004, definiu estratégias, ações de saneamento e a recuperação ambiental, visando alcançar a melhoria das águas da bacia e a volta dos peixes ao rio.

Em 2007, a Meta passou a ser um dos projetos estruturadores do Governo de Minas, que por meio da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) procurou articular um conjunto de ações a serem desenvolvidas pela Copasa, secretarias de Estado, prefeituras, comunidades e empresas.

Com as Metas 2010 e 2014 os resultados foram significativos, principalmente na região do Baixo e do Médio Rio das Velhas. Essas áreas, beneficiadas pelas intervenções na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), apresentaram melhorias significativas na qualidade das suas águas. No processo de desenvolvimento das ações da Meta, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD), também desenvolveu o Programa Itinerante de Educação Ambiental e Mobilização Social – “Expedição Nadando com o Theo pelo Rio das Velhas”, atingindo um público de cerca 35.000 estudantes da rede pública de ensino da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas.

Para ambientalistas, numa avaliação qualitativa, a Meta atingiu 60% do esperado e demonstrou na prática que a sociedade pode reverter o processo de degradação, desde que estabeleça esse objetivo como uma meta política.

Infelizmente, os avanços não foram suficientes para que o objetivo de nadar nas águas do Rio das Velhas na RMBH fosse concretizado, em função do alto índice de coliformes fecais na região. Apesar desse ponto negativo do balanço, foram positivos os avanços na política de saneamento básico na bacia, o que tem possibilitado a volta dos peixes ao rio e a diminuição na mortandade dos mesmos. As metas de pescar e nadar na Região Metropolitana no Rio das Velhas será perseguida pelo Comitê, Projeto Manuelzão, entidades parceiras e por toda a sociedade mineira. A perspectiva agora é construir novos caminhos através da reformulação das medidas adotadas e das propostas realizadas para que a aplicação das ações de preservação e conscientização sejam completas e possam atingir os objetivos de plena revitalização da bacia do Rio das Velhas.

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Estação de Tratamento de Esgoto – ETE Arrudas

Visão da Copasa

A experiência de melhoria da qualidade das águas do Rio das Velhas transformou-se em modelo para a recuperação e despoluição de outros rios de Minas Gerais, afirma o gestor da Meta 2014 e membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, Valter Vilela. Para ele, a Copasa teve papel fundamental nos resultados obtidos na Meta 2010/2014; para dar continuidade aos trabalhos, assumiu novos compromissos que foram firmados e, a partir de agora, devem levar as ações também para outras bacias do estado.

“Oferecer aos mineiros um Rio das Velhas no qual seja possível navegar, pescar e nadar no trecho da região metropolitana de Belo Horizonte foi o objetivo da Meta 2010, idealizado pelo Projeto Manuelzão e abraçado pela Copasa. As ações adotadas, recentemente, para diminuir a forte degradação sofrida pela bacia já provocam efeitos positivos. A comprovação da volta dos peixes ao Rio das Velhas é o principal e mais visível indicador da melhoria na qualidade da água. O biomonitoramento realizado por meio do Projeto Manuelzão constatou que peixes que subiam somente 250 km na bacia em 2000, hoje já são identificados ao longo de 580 km, chegando bem próximos às áreas mais degradadas”, comenta Vilela.

Números da Meta

“Desde 2004, a Copasa vem intensificando as ações de coleta e tratamento de esgoto na Bacia do Velhas para impedir que dejetos sejam lançados no rio. Os números que envolvem sua participação no projeto demonstram o comprometimento da companhia com os resultados”, afirma Valter Vilela ao revelar que os investimentos entre 2004 e 2008 foram de R$ 570 milhões e em 2010 mais R$ 760 milhões, totalizando pelo menos R$ 1,3 bilhão aplicado em 172 obras.

Entre as principais ações estão a construção de Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e o desenvolvimento de programas como o ‘Caça-Esgoto’ para implantar redes coletoras e interceptoras de esgoto, além da construção de Unidades de Tratamento de Resíduos (UTR).

O saneamento ambiental das sub bacias do Arrudas e do Onça foi o primeiro foco das ações de recuperação da qualidade das águas. Para isso, foram realizados investimentos significativos na implantação de ETEs. Somente na bacia do Rio das Velhas existem 29 ETEs: 21 em operação, 1 em ampliação, 5 em obras e 2 em licitação e projeto de planejamento. Vale ressaltar que em 1999, apenas 1,34% do esgoto coletado na RMBH era tratado. Em 2008, esse volume saltou para o percentual de 57,33%. Já em 2011, o índice chegou a 76,03%. Para este ano, a meta é chegar a 84% de esgotos tratados.

“Os números são impressionantes e demonstram que nos últimos anos fizemos um esforço grande. Quando falo ‘fizemos’, não é só a Copasa e o Governo, mas a sociedade civil também. Se não houver mobilização da sociedade, empresários, universidades e organizações da sociedade civil não governamental, ao lado dos poderes públicos, não conseguiremos reverter tantas necessidades que temos. É graças a esse trabalho de harmonia e de coesão que conseguimos ao longo dos últimos anos essa evolução”, ressalta Valter Vilela ao argumentar que também reconhece que apesar da empresa ter um papel importantíssimo, sozinha ela não resolve o problema da despoluição dos rios.

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Valter Vilela , superintendente da Copasa

Visão da FIEMG – A indústria na Meta 2014

Dada a complementariedade das inciativas e a importância do setor industrial diante da qualidade hídrica, nota-se a necessidade da implementação de projetos que congreguem a gestão dos recursos hídricos convergindo esforços conjuntamente para esse objetivo.

Parceira nas atividades da Meta 2010/2014, a Federação das Indústrias do Estado e Minas Gerais (FIEMG) participou da Meta através do programa Minas Sustentável. A proposta se instituiu na formação e capacitação das empresas que fazem parte da bacia do Rio das Velhas. As atividades aconteceram em mais de 350 entidades localizadas na bacia do Ribeirão da Mata, Arrudas, Onça e Caeté/Sabará. “Nossos técnicos visitaram as empresas mostrando a elas como é importante a valorização da água”, comenta o gerente de meio ambiente da FIEMG, Wagner Soares.

Foto01Wagner Soares, gerente de Meio Ambiente da FIEMG

O projeto Minas Sustentável

A FIEMG na Meta 2014 teve como objetivo a inserção da indústria no trabalho de revitalização da bacia do Rio das Velhas e foi embasada em ações focadas nas principais sub bacias e nas atividades industriais hidrointensivas. O trabalho inicial consistiu na caracterização da poluição e fonte poluidora e aplicação do Projeto, que buscou a compreensão da dinâmica de interação das indústrias da região com a qualidade hídrica.

“O projeto estabeleceu conexão entre as áreas de conhecimento do Sistema FIEMG com a indústria, promovendo visitas técnicas, orientações aos empreendedores, capacitação e desenvolvimento de soluções que estimulassem a adoção de processos produtivos mais sustentáveis na indústria e em sua cadeia produtiva”, avalia.

Segundo Wagner, a expectativa é que em 2015 as empresas que deram abertura para a capacitação sejam visitadas novamente. “Com essas empresas iremos fazer um programa de eficiência. A proposta é que o consultor da FIEMG entre no chão da fábrica e levante os vários pontos de melhoria em relação ao uso de água. A intenção é ficarmos seis meses na empresa dando palestras sobre esse recurso, os resíduos sólidos e energia. As atividades serão trabalhadas com o microempresário para que ele adote a ação na empresa”.

O trabalho será realizado no Ribeirão da Mata e a meta para 2015 é visitar 400 empresas. “Quando iniciamos no Ribeirão da Mata, em 2014, foram visitadas 186 empresas. Desse trabalho percebemos que 31% delas já adotam alguma medida de redução do consumo de água. A maioria das empresas trata os efluentes para depois lançá-los no rio. Um ponto positivo no avanço das conquistas da Meta”, afirma.

No total, em 2013/2014 foram visitadas 186 empresas na bacia do Ribeirão da Mata; 179 no Arrudas e 95 no Ribeirão do Onça. Para Soares, é difícil quantificar a Meta, mas no sentido de capacitação e conscientização, ela foi positiva. “A proposta indicou um esforço coletivo e a atuação de todos os órgãos envolvidos foi fundamental, pois as ações não se basearam apenas no denuncismo, mas procurou os envolvidos e uma solução conjunta e responsável para o problema”.

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