É início de novembro e a primavera caminha para a sua metade final. Mesmo com o período de chuvas já iniciado há um mês, a vazão em vários pontos do Rio das Velhas tem registrados índices extremamente baixos. E os problemas não param por aí: a morte em larga escala de peixes tem sido regularmente observada na região do Médio Rio das Velhas, e aguapés tem se proliferado, não só no Médio como no Baixo também.

Em relação à vazão, o cenário é tão preocupante que o ponto de captação da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) em Santo Hipólito atingiu o índice mais severo para a definição da situação de escassez hídrica no Estado: o de restrição de uso. Com registros na ordem entre 16 e 17 m³/s, em outubro, a vazão do rio neste ponto esteve 40% abaixo do chamado Q7,10 – coeficiente adotado como referência para concessão das outorgas e também para definição da situação hídrica em Minas, considerando a vazão mínima de sete dias consecutivos com período de recorrência de dez anos.

Na Estação de Tratamento de Água (ETA) de Bela Fama, que responde por cerca de 60% do abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), o cenário não foi diferente. Em 14 de outubro, por exemplo, a vazão no Rio das Velhas marcou 7,2m³/s, pouco antes da Copasa captar quase a sua totalidade – 6,5m³/s – para abastecer a população da capital.

Aguapés se proliferam

A proliferação de aguapés no Rio das Velhas também tem sido observada principalmente nas regiões do Baixo e Médio Baixo Rio das Velhas. O aguapé funciona como um filtro capaz de retirar as impurezas da água, mas quando não há controle e se forma o efeito ‘tapete’, serve como um indicador de poluição.

De acordo com Erick Sangiorgi, mobilizador social do Projeto Manuelzão, esse fenômeno é conhecido como eutrofização, processo pelo qual um corpo de água adquire níveis altos de nutrientes, provocando o posterior acúmulo de matéria orgânica em decomposição. “Aqui, no caso, isso se dá principalmente pelas grandes quantidades de nitrogênio e fósforo, além de pesticidas e adubos químicos usados em lavouras, que acabam sendo carreados para o rio. Juntando isso com os efluentes que são lançados das ETEs (Estações de Tratamento de Esgoto) da região, favorece a eutrofização e o surgimento das macrófilas aquáticas, principalmente aguapés”.

Ainda segundo Erick, os peixes são os primeiros a sentir os impactos negativos dos aguapés. “Principalmente à noite eles começam a competir oxigênio com os peixes. Daí a mortandade que temos acompanhado com frequência nas regiões do Médio e Baixo”, conclui.

Juvenal Caldeira Neto é morador ribeirinho do Rio das Velhas, no distrito de Senhora da Glória, em Santo Hipólito, e integra o MAP – Monitoramento Participativo Amigos do Rio. Segundo ele, a presença de aguapés no rio tem sido cada vez mais constante. “Já há alguns anos venho percebendo um crescimento exorbitante de aguapés aqui no rio. Sabemos que a proliferação é decorrente da poluição em que o Rio vem sofrendo. Infelizmente, hoje o descaso é total. O momento é de muita preocupação e medo”.

Mortandade como consequência

O Projeto Manuelzão, entidade ligada à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), denunciou, no início de outubro, a morte em larga escala de peixes no Rio das Velhas. De acordo com informações enviadas pelos ‘Amigos do Rio’, várias toneladas de peixes teriam morrido em Santana do Pirapama, em decorrência da má qualidade da água nesses pontos. Segundo os ribeirinhos, peixes de várias espécies e tamanho foram avistadas tentando chegar à superfície e respirar.

 Peixes de várias espécies e tamanhos morreram, principalmente nas regiões do Médio e Baixo Rio das Velhas. Motivo seriam os aguapés, que disputam oxigênio com os peixes (em baixo, à direita). Foto: Amigos do Rio

A Polícia Ambiental compareceu em Jequitibá e está acompanhando o caso. A relação entre as fortes chuvas que caíram na RMBH no início de outubro e a mortandade foi apontada como um dos fatores causadores.


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