Crise da água no rio Guandu denuncia a má qualidade do Rio e compromete o tratamento das águas

27/01/2020 - 11:53

Desde o dia 03 de janeiro de 2020, moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro têm notado em suas torneiras uma água turva e com cheiro. Aproximadamente nove milhões de pessoas dependem do rio Guandu que abastece 80% da população da região metropolitana.

Segundo a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio (Cedae), a alteração é causada pela geosmina, uma substância não tóxica que é liberada por algas. O comunicado divulgado pela Cedae afirma que a proliferação de micro-organismos se deve a variações normais de temperatura, luminosidade ou índice pluviométrico. No entanto, especialistas alertam que o fenômeno pode ser indicativo da poluição dos mananciais por esgoto não tratado ou por vazamentos industriais e que chegam ao Guandu rios altamente poluídos, como o Ipiranga, o Queimados, o Poços e o Cabuçu, que recebem esgoto industrial e doméstico da Baixada Fluminense.

O professor e engenheiro sanitarista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Adacto Ottoni, destaca sobre a poluição das águas dos principais mananciais que fornecem água para a Estação do Guandu: “Fiz um sobrevoo pelos afluentes mais importantes do Guandu e também em sua calha, no dia 09 de janeiro, o que me permitiu constatar claramente o alto grau de degradação da bacia, com ocupação das faixas marginais e desmatamento. Pude ver a água passando pelas cidades e as manchas de poluição entrando nos cursos d’água”.

Imagens aéreas divulgadas pelos meios de comunicação mostram muito lixo no leito dos rios. Os micro-organismos presentes na água, por causa dos detritos, comprometem a qualidade que chega à captação da Cedae. “Tem que pegar aquela água bruta e transformar em água potável. O problema é que, se a água bruta está cada vez mais poluída, vai chegar em um ponto que será impossível tratar”, finaliza o professor.

O diretor-geral do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Guandu-RJ, Paulo de Tarso, conta que a diretoria do Comitê visitaram a Estação de Tratamento de Água da CEDAE (ETA Guandu) para acompanhar a fiscalização e coleta de amostras no processo de tratamento de água. “Mesmo o tratamento de água e a distribuição não sendo de atuação do Comitê, o colegiado tem grande preocupação com o abastecimento público, causa primária de nossa ação nas águas brutas. Conhecemos as dificuldades e, por isso, viemos entender, somar e principalmente buscar soluções junto aos órgãos responsáveis para garantir a qualidade da água que chega na casa das pessoas”, explicou

Para muitos especialistas, como já acontece em vários lugares do Brasil, o Guandu vem deixando de ser uma estação de tratamento de água para tratar, na verdade, esgoto. Como solução emergencial para tirar o cheiro e o gosto de terra da água, a Cedae esta utilizando carvão ativado como tratamento.

Qualidade da água no Rio das Velhas

Em Minas Gerais, a situação do Rio das Velhas também preocupa. Mesmo estando localizada na região Sudeste que é uma das mais avançadas na área de saneamento do Brasil, a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas ainda apresenta dados alarmantes sobre a falta da saneamento, principalmente ao não tratamento de esgotos. Pelo menos 16 municípios de um total de 51 na bacia do Rio das Velhas não possuem coleta e nem tratamento de esgoto.

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte a situação é crítica: pelo menos 40% do esgoto da RMBH não é tratado e os 60% que recebe o tratamento ainda deixa a desejar na qualidade.

O investimento em tratamento de esgoto diminui os custos do tratamento da água. Sendo assim, quanto pior for a qualidade da água captada, maior serão os custos de tratá-la para o consumo humano. E com água de qualidade, consegue-se também evitar situações como a que está ocorrendo agora no Rio de Janeiro coma reprodução de algas e o estresse delas que estão liberando a substância geosmina, responsável pelo gosto e sabor de barro na água tratada pela Cedae.

A proliferação de cianobactérias assombram a bacia do Rio das Velhas, com casos recorrentes, principalmente, após a região metropolitana de Belo Horizonte, onde o curso d’água recebe uma alta carga de poluição. As principais fontes dessa contaminação e enriquecimento da proliferação das cianobactérias têm sido identificadas como sendo as descargas de esgotos domésticos e industriais dos centros urbanos e das regiões agricultáveis.

Nas regiões de Raposos até Sete Lagoas a péssima qualidade da água assusta as populações. O Rio das Velhas tem o seu ponto mais degradado a partir dos municípios de Raposos e Sabará, onde extensas margens pontilhadas por manilhas e canalizações de esgoto e rejeitos de comércio e indústria varam os barrancos e tornam o rio perigoso para o contato humano. O aspecto da água é cinzento, denso e malcheiroso.

Para Marcus Vinícius Polignano, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas) e preciso pensar a responsabilidade de todos: sociedade, setor empresarial e estatais sobre a manutenção da qualidade das águas dos rios. “Nossos rios estão sofrendo uma contaminação constante e, como consequência, está ocorrendo uma morte sistêmica”, alerta.

Polignano finaliza dizendo que “a água é um bem comum planetário e fonte inesgotável de vida, imprescindível para a manutenção dos ecossistemas e dinâmicas naturais e para a existência da humanidade. As águas e os rios são os patrimônios maiores de um povo. Uma população que mata as suas águas está matando a si mesma”.

 

Assessoria de Comunicação CBH Rio das Velhas:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Luiza Baggio
*Fotos: Agência Brasil e G1