Logo CBH Rio das Velhas

Revista Velhas nº23: Da estrada à COP

26/05/2026 - 17:38

Uma jornada de motorhome, mais de 3 mil quilômetros pelo Brasil e o desafio de aproximar a agenda climática global da realidade dos territórios


A crise climática é frequentemente debatida em fóruns internacionais, mas seus impactos se materializam no cotidiano das cidades e das comunidades. Para reduzir essa distância entre o discurso global e a vida real, Sergio Myssior e Thiago Metzker decidiram transformar o deslocamento até a COP-30, em 2025, em uma jornada de escuta e observação pelos territórios brasileiros.

Partindo de Belo Horizonte em um motorhome, a expedição percorreu mais de 3 mil quilômetros e atravessou quatro biomas — Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Amazônia. Ao longo do trajeto, a equipe do Instituto Bem Ambiental (IBAM) registrou tanto os impactos já visíveis das mudanças climáticas quanto iniciativas locais de adaptação e resiliência urbana.

A viagem funcionou como um estúdio itinerante e, sobretudo, como um espaço de diálogo. Em cada cidade, comunidades, gestores públicos e organizações da sociedade civil compartilharam experiências concretas sobre enchentes, escassez hídrica, ondas de calor e estratégias para enfrentar esses desafios a partir da escala local.

Nesta entrevista conjunta, a Revista Velhas reúne, pela primeira vez, dois entrevistados em um mesmo percurso de perguntas e respostas. Ao longo da conversa, eles refletem sobre governança, ciência, justiça climática e financiamento — e encerram o diálogo com uma provocação mútua, como extensão natural da jornada compartilhada.


REVISTA VELHAS: Sergio, na sua visão, qual foi a principal diferença entre o que se discutiu na COP-30 sobre cidades resilientes e a realidade urbana que vocês encontraram na viagem, incluindo cidades da bacia do Rio das Velhas?

SERGIO MYSSIOR: Talvez o que mais chame atenção seja justamente um distanciamento, ou até um descolamento, entre a política global de mudanças climáticas e aquilo que de fato acontece no território, na escala local. Sendo mais específico: a agenda das mudanças climáticas, no âmbito da diplomacia global, tem se concentrado muito na mitigação dos gases de efeito estufa, ou seja, na substituição de fontes sujas por fontes limpas, na redução e eliminação gradual das emissões.

Enquanto isso, os territórios já convivem diariamente com os impactos das mudanças climáticas: enchentes, inundações, vetores de doenças como dengue e chikungunya, secas extremas, ilhas de calor, deslizamentos de terra, entre tantos outros efeitos já bastante perceptíveis. E quando esses impactos atingem territórios marcados por profundas desigualdades sociais, espaciais e econômicas, eles se tornam ainda mais agudos.

Durante essa jornada, percebemos que os municípios não apenas lidam com esses impactos, como também desenvolvem ações concretas de enfrentamento e, sobretudo, de adaptação às mudanças climáticas — seja por meio de recursos públicos, seja, principalmente, pelo engajamento da sociedade civil, que, mesmo com recursos limitados, tem conseguido se adaptar a esse novo cenário.


REVISTA VELHAS: Muitas vezes, dados científicos sobre mudanças climáticas permanecem distantes da realidade das pessoas. Como a ciência pode se comunicar de maneira mais efetiva com gestores e cidadãos locais para incentivar ações concretas?

THIAGO METZKER: O desafio é traduzir os dados científicos e levá-los para uma escala menor, local. O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) trabalha com uma base de dados global, e essa tradução não é simples. Por isso, cabe também a nós, e a instituições como o CBH Rio das Velhas, que já têm uma trajetória importante na área de comunicação, fazer aquilo que costumamos chamar de “tradução da sopa de letrinhas climáticas”.

O esforço é explicar o que significa, na prática, um aquecimento médio de 1,5 °C. O que isso representa para quem anda de ônibus, para o trabalhador, para o cidadão urbano. Quantos dias a mais de calor extremo no ano isso implica? O que significa se preparar para períodos de escassez hídrica ou para uma chuva de 100 mm em um único dia, quando a cidade ou a zona rural não estão preparadas?

Essas mudanças afetam também o calendário agrícola, a época de plantio e colheita, o manejo de pragas e o avanço de doenças tropicais como dengue e chikungunya, que tendem a se expandir com o aquecimento global.

A ciência precisa se aproximar das pessoas e humanizar os dados climáticos, conectando-os ao dia a dia. Os eventos extremos já estão acontecendo. Temos visto cidades devastadas por tornados e fenômenos antes considerados raros no Brasil, algo que a ciência alerta há décadas.

Além disso, é fundamental investir em sistemas de monitoramento integrados e acessíveis à sociedade civil. Precisamos também de alertas confiáveis e orientações práticas para a população: o que fazer, para onde ir, como agir. É nesse ponto que a ciência precisa estar conectada à vida real.


Thiago Metzker e Sergio Myssior transformaram o trajeto até a COP-30 em uma jornada de escuta e conexão com os territórios e seus desafios climáticos.


REVISTA VELHAS: Diante dos desafios que observou nas cidades brasileiras, que tipo de intervenção urbana ou medida de planejamento você considera mais urgente para aumentar a resiliência da nossa região, especialmente diante de eventos extremos como enchentes e ondas de calor?

SERGIO MYSSIOR: Acredito que seja fundamental adotar uma nova abordagem fundamentada em Soluções Baseadas na Natureza e em infraestrutura verde, que se somem à infraestrutura convencional — a chamada infraestrutura cinza. Essa orientação mais naturalística dialoga diretamente com o recorte territorial das bacias hidrográficas, que ultrapassam os limites político-administrativos dos municípios e exigem uma abordagem estratégica integrada, com a dimensão socioambiental como eixo central.

Traduzindo isso para o cotidiano dos territórios, já existem instrumentos amplamente conhecidos, no Brasil e fora dele, que podem ser aplicados de forma imediata para aumentar a resiliência urbana. Soluções distribuídas, como jardins de chuva, valetas de infiltração e sistemas naturalísticos para o manejo de chuvas intensas, são exemplos concretos.

É essencial adotar um diálogo transversal com a questão socioambiental, reconhecendo o recurso hídrico como elemento estruturante do território — tanto para o abastecimento quanto para a proteção ambiental, por meio de APPs (Áreas de Preservação Permanente), recuperação de matas ciliares e áreas degradadas.

Essa abordagem não deve ser vista como algo acessório, mas como uma diretriz estratégica central, associada a processos de cocriação, engajamento e fortalecimento dos espaços colaborativos, com protagonismo da sociedade civil.

Nesse sentido, a agenda das mudanças climáticas tem muito a aprender com a política de recursos hídricos, especialmente com a experiência dos comitês de bacia, que já trabalham há décadas com participação social, governança compartilhada e ações que reverberam positivamente no território.


REVISTA VELHAS: A COP-30 destacou a importância de que os recursos cheguem a todos os territórios. Como podemos garantir que iniciativas de adaptação local na bacia do Rio das Velhas contemplem de forma justa diferentes comunidades, inclusive as mais vulneráveis?

THIAGO METZKER: A primeira questão é o mapeamento das comunidades e de suas vulnerabilidades. É fundamental identificar onde elas estão e qual é o grau de exposição a diferentes riscos: geológicos, inundações, ondas de calor, entre outros. Esse diagnóstico precisa ser feito na escala local.

O segundo ponto é compreender que os grupos mais vulneráveis devem ser prioritários, a partir do conceito de justiça climática. São populações que pouco contribuíram para o aumento das emissões de gases de efeito estufa e, ainda assim, são as mais impactadas pelas mudanças climáticas. Sua pegada de carbono é mínima, mas os efeitos recaem de forma desproporcional sobre seus modos de vida.

Por isso, esses grupos já são considerados prioritários na diplomacia climática internacional, especialmente quando se encontram em situação de vulnerabilidade avançada.

A partir dessa experiência, entendo que não podemos esperar exclusivamente por iniciativas vindas do “chapéu climático global”. No caso da bacia do Rio das Velhas, existe uma oportunidade especial, pois já há um histórico de governança consolidada e capilarizada.

As soluções, muitas vezes, são muito mais simples do que os grandes projetos globais. Quando se constrói um processo participativo, cocriativo, devidamente mapeado, com base em Soluções Baseadas na Natureza (SbN), o projeto nasce alinhado à realidade local, bem dimensionado e apoiado por uma governança que já existe, como a do CBH Velhas.


Entre negociações, encontros e trocas, a COP-30 conectou diferentes realidades na construção de respostas globais para o clima.


THIAGO METZKER: Sergio, dentro de toda essa jornada que a gente fez, vimos bons exemplos com potencial de escalabilidade. Se você tivesse que destacar uma região, um território ou uma iniciativa dessa jornada como um grande piloto ou laboratório de resiliência urbana e territorial, qual escolheria?

SERGIO MYSSIOR: Essa é uma pergunta difícil, porque foram muitas experiências relevantes. Mesmo em apenas dez dias de jornada até Belém (PA), conseguimos mergulhar em inúmeros projetos e ações que já estão em andamento. Iniciativas como os Jovens Curvelanos pelo Clima, os laboratórios de inovação que conhecemos em Palmas (TO), entre tantas outras, já demonstram grande capacidade de promover transformações nos campos ambiental, fundiário, habitacional e de mobilidade.

Diante de tanta diversidade, fica difícil escolher uma única iniciativa. Por isso, o principal destaque que eu faria é o próprio processo da jornada, um processo extremamente pedagógico.

A expedição nos permitiu mergulhar nos territórios, escutar as vozes das comunidades e conhecer de perto o que já está sendo feito para enfrentar os impactos climáticos. Percorrer os territórios, ouvir as pessoas e colocá-las no centro das soluções foi, para mim, o principal aprendizado dessa jornada.


SERGIO MYSSIOR: Thiago, você destacou a importância do acesso aos recursos. Embora esses recursos ainda sejam insuficientes frente à magnitude dos desafios climáticos, o acesso a eles continua sendo um grande obstáculo, sobretudo no nível local. Como podemos construir uma espécie de trilha da resiliência até que esses recursos cheguem e sejam aplicados em projetos orientados por infraestrutura verde e soluções baseadas na natureza?

THIAGO METZKER: Uma das grandes oportunidades para acessar o financiamento em escala local está no compartilhamento de experiências. Há territórios e cidades que já acessaram esses recursos e acumulam aprendizados valiosos.

Quando organizamos isso em uma rede — como a Rede Brasileira de Cidades e Territórios Resilientes — conseguimos construir essa trilha da resiliência de forma muito mais objetiva e prática.

Tudo começa com o processo de cocriação, a partir do mapeamento local e da construção coletiva das demandas do território. A rede ajuda a estruturar essas informações, utilizando metodologias participativas adaptadas à realidade local.

Em seguida, esse material é traduzido para a linguagem do capital por especialistas que já têm experiência nesse tipo de financiamento ou que estão em processo de capacitação.

Após a estruturação e a captação, a rede também permite o monitoramento coletivo dos projetos, compartilhando aprendizados sobre o que funcionou e o que precisa ser ajustado, favorecendo a escalabilidade das soluções.

Não temos mais tempo a perder. A urgência climática é agora. Os recursos precisam chegar no tempo certo, vir dos fundos adequados e evitar processos de endividamento que comprometam territórios já vulneráveis.


Assessoria de Comunicação do CBH Rio das Velhas:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: entrevista e matéria de Luiz Ribeiro; originalmente publicada na Revista Velhas nº23
*Fotos: Acervo Pessoal; João Alves; Tânia Rêgo/Agência Brasil