A Comunidade Quilombola do Capão, em Presidente Juscelino, no Médio-Baixo Velhas, recebeu a décima edição do Festival Ecologia de Saberes do Paraúna. Com o tema “Personalidades Quilombolas”, o evento reuniu, entre os dias 18 e 23 de agosto, oficinas, manifestações culturais, atividades educativas, rodas de conversa e ações de valorização da memória e da identidade da comunidade.
Realizado pela Prefeitura de Presidente Juscelino, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, o festival contou com a parceria do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas) e do Subcomitê Rio Paraúna. Entre as atrações, esteve a exposição educativa itinerante “Velhas, Faço Parte”, que levou ao público informações sobre a bacia, seus rios e a importância da participação social na gestão das águas.
A programação também contou com uma reunião conjunta dos Subcomitês Rio Paraúna, Rio Cipó e Peixe-Bravo, aproximando diferentes territórios e comunidades que integram a Bacia do Rio das Velhas. A atividade reforçou a dimensão de mobilização e troca de experiências que marca a atuação dos Subcomitês.
Saberes que atravessam gerações
Ao longo dos dias, o festival colocou em evidência conhecimentos construídos e transmitidos dentro das comunidades. Oficinas de produção de farinha de mandioca, doces quilombolas, artesanato ribeirinho, adobe, sementes crioulas, dança, percussão, vissungos e pinturas rupestres dividiram espaço com apresentações culturais e atividades educativas.
A programação também incluiu o Memorial Acotirene – Mini Museu Afro, criado como espaço de memória e resistência da Comunidade Quilombola do Capão, além da Conferência Municipal de Cultura, que discutiu o patrimônio cultural afro-brasileiro e sua preservação.
A trajetória do festival está diretamente ligada ao processo de pesquisa e valorização da história da Comunidade Quilombola do Capão. José Elci Moreira, agente cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Presidente Juscelino e um dos organizadores da iniciativa, conta que sua aproximação com a temática quilombola se aprofundou a partir de 2013, quando começou a investigar, junto a um grupo de professores, a história e a identidade da comunidade. “Em 2013, durante uma formação com um grupo de professores, surgiu a ideia de fazer uma pesquisa sobre essa parte tão pequena de Presidente Juscelino, no limite do território do município, aqui na junção das águas, onde você encontra uma comunidade que ainda resistiu ao tempo, preservando essa história e essa identidade”, relata.
A pesquisa deu origem ao Grupo Quilombola do Capão e, posteriormente, ao Festival Ecologia de Saberes do Paraúna. “Desde 2013, o festival acontece durante uma semana: começa na segunda-feira e termina no domingo, e fica essa semana toda de pesquisas, atividades e troca de saberes”, explica.
Segundo José Elci, as primeiras edições foram construídas com forte participação comunitária. “Naquele primeiro ano, a gente não tinha nada, só coragem. Juntamos a comunidade. Quando começamos, trazendo gente de fora e tudo mais, foi tudo com doações da própria comunidade. E a solidariedade aqui é muito forte.”
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Cultura e águas
A relação entre cultura, território e águas também esteve presente na programação. A caminhada pela chamada Rota da Emancipação percorreu o caminho histórico associado à formação do Quilombo do Capão, passando pelo vau do Rio Paraúna, pela antiga sede da Fazenda do Brejo e por estruturas históricas.
Para Edna Ferreira, moradora da comunidade e servidora da Escola Municipal José Maria Bonifácio, onde trabalha há 26 anos, a realização do festival ajuda a fortalecer e transmitir a cultura local. “Vejo uma importância muito grande em um evento como esse, quando a gente recebe pinturas diferentes e, ao mesmo tempo, passa uma cultura diferente. O meu desejo é que fique algo de importante para a comunidade, como uma casa de cultura bem-feita, onde a gente possa expor nossa cultura, um museu, um espaço permanente”, afirma.
Edna também chama atenção para a relação cotidiana da população com o Rio Paraúna. “O Rio Paraúna é uma fonte de trabalho, porém, não tem nada legalizado. Os moradores sofrem muito quando não podem fazer o trabalho da pesca. E também temos uma área de lazer, que são as praias, muito lindas.”
Ela aponta, no entanto, desafios relacionados ao acesso a esses locais. “Não tem um acesso bem-feito para chegar até o local. Não tem preparo nenhum. É preciso passar pelo terreno das pessoas, que às vezes está trancado. Mas é uma área de lazer muito boa e prazerosa.”
Uma bacia feita de muitos rios e histórias
A presença do CBH Rio das Velhas no festival também aproximou a discussão sobre as águas das manifestações culturais e dos modos de vida existentes no território. Ator, cantor, compositor e poeta, Tinga das Gerais participou da programação com uma oficina de vissungos. Natural de Corinto, no Baixo Velhas, ele desenvolve trabalhos ligados à cultura e à difusão da história dos rios.
“É uma honra estar aqui e falar da Bacia do Rio das Velhas e do trabalho do CBH Rio das Velhas. Ao longo dessa trajetória, aprendi muito com as comunidades quilombolas e ribeirinhas e com todos aqueles que fazem parte dessa luta. Gosto sempre de dizer que aprendo mais do que posso ensinar”, afirma.
Para Tinga, falar do Rio das Velhas também significa reconhecer a rede de afluentes, comunidades e histórias que formam a bacia. “Falar do Velhas é falar de história, navegação, expedições, cultura e de um trabalho incansável de mobilização em defesa das águas. É também falar dos seus afluentes, como o Rio Cipó, e de toda a rede de rios que forma essa grande bacia.”
Ele compara a dinâmica dos rios à circulação do sangue no corpo humano. “Assim como as veias e artérias conduzem o sangue pelo nosso corpo, os rios e seus afluentes conduzem a água pelo território.”
O festival foi encerrado no domingo (23), com uma mística de encerramento, momento de reflexão e celebração da identidade quilombola, além do lançamento do tema da edição de 2027.
Ao reunir memória, cultura, educação, participação social e relação com o território, o Festival Ecologia de Saberes do Paraúna reafirma a importância dos conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades e da valorização das diferentes formas de compreender e cuidar dos territórios que integram a Bacia do Rio das Velhas.
Assessoria de Comunicação do CBH Rio das Velhas:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Luiz Ribeiro
*Fotos: Fernando Piancastelli
