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Revista Velhas nº23: Quando o cuidado faz a água brotar no coração da cidade

26/06/2026 - 13:46

Entre quintais, matas e concreto, histórias de cuidado revelam como as nascentes urbanas seguem vivas e apontam caminhos para o futuro da gestão das águas na bacia


No bairro Eldorado, em Contagem, há um lugar onde o tempo parece correr no ritmo da água. Em meio ao crescimento urbano, Israel Paulo da Silva, de 64 anos, aprendeu desde cedo que nascente não é paisagem: é responsabilidade. “Minha mãe falava que água a gente não cria, a gente protege. Se não cuidar, ela vai embora”, conta.

Israel mora com cinco irmãos em um terreno de aproximadamente 5 mil metros quadrados, herdado da família. O espaço abriga mais de 20 nascentes ativas, espalhadas entre árvores, trilhas improvisadas e áreas de mata que resistem à cidade ao redor. “Aqui sempre teve água. Mesmo quando tudo em volta foi mudando, a gente fez questão de não mexer onde tem nascente”, explica.

Uma dessas nascentes é a AR017, localizada na sub-bacia do córrego Ferrugem. Ela integra o Programa de Valorização de Nascentes Urbanas, iniciativa do CBH Rio das Velhas e dos Subcomitês Arrudas e Onça, que na década anterior reconheceu, mapeou e valorizou olhos d’água existentes em meio ao tecido urbano. Pelo excelente estado de conservação, a nascente se destaca: dela brotam cerca de 50 mililitros de água por minuto, de forma contínua e limpa.

“Eu não fiz nada demais. Só não deixei destruir. A água sabe agradecer”, diz Israel. O cuidado cotidiano envolve manter a vegetação, observar o fluxo da água e impedir intervenções indevidas. Uma de suas irmãs divide com ele essa rotina. “A gente faz porque acredita. Se cada um cuidasse do pedacinho que tem, muita nascente não teria acabado”, reflete.

Na propriedade, o cuidado com a água caminha junto com o trabalho na terra. Israel mantém cerca de 300 bananeiras, 15 aceroleiras, seis abacateiros e cinco mangueiras, de onde tira o sustento da família e os recursos necessários para manter as nascentes protegidas. “É da terra que vem tudo: o alimento, o dinheiro e a condição de continuar cuidando da água”, resume.

A experiência vivida no quintal da família Silva ajuda a entender a lógica que orientou o Programa de Valorização de Nascentes Urbanas do CBH Rio das Velhas: reconhecer que, mesmo nas cidades, a água segue nascendo — e que sua proteção depende tanto de políticas públicas quanto do envolvimento direto das pessoas que vivem nos territórios.


Cuidada há décadas pela família de Israel Paulo da Silva, a nascente AR017 resiste à urbanização e revela a força do cuidado cotidiano na proteção das águas urbanas


Revelando águas escondidas

Desenvolvido em diferentes etapas, o Programa de Valorização de Nascentes Urbanas promoveu diagnósticos, mapeamentos e intervenções nas sub-bacias dos Ribeirões Arrudas e Onça, áreas historicamente pressionadas pela urbanização.

Na primeira fase, os trabalhos se concentraram na identificação e caracterização de nascentes urbanas, revelando centenas de olhos d’água até então desconhecidos ou invisibilizados pelo crescimento da cidade. Essas nascentes, muitas vezes localizadas em fundos de lote, áreas públicas ou fragmentos de mata urbana, passaram a integrar um banco de informações técnicas fundamental para a gestão da bacia.

A segunda fase, executada entre 2016 e 2017, aprofundou esse diagnóstico, ampliando o número de nascentes identificadas e avançando para ações de recuperação ambiental, proteção física e mobilização comunitária. Em 2022, também foram incluídas no programa intervenções em fundos de vale, uma outra forma de permitir a apropriação de espaços e promover melhorias da qualidade dos cursos d’água urbanos.

Ao longo desse processo, o CBH Rio das Velhas consolidou um aprendizado central: as nascentes urbanas só se mantêm vivas quando há continuidade, acompanhamento técnico e diálogo com os cuidadores locais — moradores que, como Israel, já exerciam esse papel antes mesmo da chegada dos projetos.

Esse entendimento segue orientando as ações do Comitê. Mais recentemente, o Subcomitê Ribeirão Arrudas tem promovido visitas técnicas e retomado o contato com cuidadores das nascentes atendidas nas fases anteriores, avaliando resultados e fortalecendo os vínculos construídos ao longo do tempo.


À esquerda, nascente revitalizada na Escola Municipal Santos Dumont, em BH, integrada ao cotidiano da comunidade escolar. Já à direita, membros do Subcomitê Ribeirão Arrudas em visita técnica à outra nascente revitalizada, na Escola Estadual Cecília Meireles, também na capital mineira  


O novo Programa de Mananciais e Nascentes

É a partir dessa trajetória — construída entre quintais, fundos de vale e políticas públicas — que o CBH Rio das Velhas avança para uma nova etapa com o lançamento do Programa de Mananciais e Nascentes Urbanas (PMNU). A iniciativa amplia o olhar sobre a água nas cidades, integrando a recuperação de nascentes à proteção de áreas estratégicas de mananciais urbanos.

Em 2025, o PMNU selecionou quatro propostas que refletem diferentes realidades territoriais e arranjos institucionais, envolvendo tanto organizações da sociedade civil quanto o poder público municipal. O programa já está em fase de estruturação técnica pela Agência Peixe Vivo, com a elaboração de Termos de Referência que nortearão a contratação de empresa para elaboração dos projetos nas quatro localidades selecionadas.

As propostas selecionadas pelo PMNU são:

  • Lagoa Santo Antônio, localizada em Pedro Leopoldo, apresentada pela Associação Movimento Lagoa Viva – SOS Lagoa de Santo Antônio;
  • Córrego das Nascentes, afluente do Córrego Bom Jesus, na altura do Parque Amendoeiras, apresentada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Contagem;
  • Parque do Conjunto Lagoa, apresentada pela Secretaria Municipal de Política Urbana da Prefeitura de Belo Horizonte;
  • Nascente da Vila Santo Antônio/Barroquinha, apresentada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Prefeitura de Belo Horizonte.

Mais do que novos projetos, o PMNU representa a continuidade de uma visão: reconhecer que a água urbana nasce pequena, muitas vezes escondida, mas ganha força quando encontra cuidado, política pública e participação social. Assim como a nascente cuidada por Israel, o futuro da bacia do Rio das Velhas começa onde a água brota — e onde alguém escolhe protegê-la.


À esquerda, fundo de vale revitalizado na bacia do Ribeirão Onça, em Contagem, onde a recuperação ambiental redesenha a paisagem urbana. À direita, Lagoa de Santo Antônio, em Pedro Leopoldo, é uma área de grande importância ambiental na bacia, marcada pela biodiversidade e pela mobilização comunitária em sua proteção.


Quatro territórios, um mesmo propósito

Se as histórias de cuidadores como Israel mostram que a proteção da água começa em gestos cotidianos, o PMNU amplia esse cuidado para uma escala territorial. A seleção das propostas marca a convergência entre experiência local, conhecimento técnico e articulação institucional, conectando diferentes realidades urbanas em torno de um objetivo comum: recuperar áreas estratégicas de água e fortalecer a resiliência hídrica da bacia do Rio das Velhas.

Para Márcia Lopes, da ONG Movimento Lagoa Viva, o reconhecimento do projeto voltado à Lagoa de Santo Antônio simboliza anos de mobilização e diálogo com a comunidade. “A gente ficou muito satisfeita com o resultado. É um reconhecimento de uma luta antiga e da importância desse território para toda a bacia do Rio das Velhas”, afirma.

Segundo ela, a Lagoa de Santo Antônio, em Pedro Leopoldo, é um manancial diretamente interligado ao Rio das Velhas e cumpre papel fundamental como ecossistema estratégico. “É uma área úmida de grande relevância ambiental, por onde passam várias aves migratórias, e que está inserida na Área de Proteção Ambiental Carste de Lagoa Santa”, destaca.

Também finalista do Programa de Mananciais e Nascentes Urbanas, a Prefeitura de Belo Horizonte apresentou, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, uma proposta voltada à recuperação ambiental de uma área de nascente difusa — caracterizada como brejo — localizada na Vila Barroquinha, no bairro Serrano. A área integra a sub-bacia do córrego Ressaca, na bacia do Ribeirão Onça, e é conhecida localmente como Vila Santo Antônio/Barroquinha.

Para Caroline Craveiro, Gerente de Recursos Hídricos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belo Horizonte, o resultado do PMNU foi recebido com satisfação e senso de responsabilidade. “Ficamos muito satisfeitos em sermos finalistas. É um reconhecimento do trabalho técnico da equipe e da relevância ambiental da área escolhida”, afirma.


Márcia Lopes e Caroline Craveiro representam diferentes frentes de atuação – sociedade civil e poder público – unidas na proteção de nascentes e mananciais urbanos.


A proposta apresentada ao PMNU prevê a recomposição da cobertura vegetal com espécies nativas, o manejo de espécies invasoras, a implantação de sinalização ambiental e a avaliação da necessidade de estruturas para controle de processos erosivos. Para Caroline, que integra os Subcomitês dos Ribeirões Arrudas, Onça e Caeté-Sabará, a intervenção também tem um papel simbólico e social. “Recuperar esse brejo urbano é valorizar o território, reduzir riscos ambientais e fortalecer o vínculo da comunidade com a área. É uma ação que deixa legado”, conclui.

Assim, do cuidado silencioso nos quintais urbanos às ações estruturantes em áreas estratégicas, o CBH Rio das Velhas reafirma uma visão integrada de gestão das águas, na qual cada nascente e cada manancial têm papel essencial no caminho da água até o Rio das Velhas.


Assessoria de Comunicação do CBH Rio das Velhas:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Luiza Baggio; originalmente publicada na Revista Velhas nº23
*Fotos: Fernando Piancastelli; João Alves; Léo Boi; Lóla Luvizoto; Paulo Vilela